Rua dos Fenianos

Rua dos Fenianos

A partir das 13H30 do dia 10 de Novembro de 2015, hora e data em que foram assinados os acordos que viabilizaram a constituição do XXI governo constitucional, que a legitimidade entre os defensores desta solução se tornou universal para também se pronunciarem sobre as decisões de cada um dos actores políticos com consequências, próximas ou afastadas, sobre o sentido desses acordos.

Embora aqueles acordos não tenham incidência sobre as eleições autárquicas e, por isso, o apoio do partido socialista  a Rui Moreira represente uma escolha que só a ele diga respeito, não é indiferente que na segunda autarquia politicamente mais relevante do país este partido se associe àquela solução, argumentado que em equipa vencedora não se mexe. A história está recheada destes equívocos, alguns deles particularmente trágicos. Além disso, a lógica deste raciocínio encerra o risco de na autarquia do Porto o partido socialista render-se a uma individualidade que, no Norte, é o lídimo representante do bloco central, aquele que o actual primeiro-ministro afastou do seu horizonte governamental. E por muito estimáveis que sejam, isto não são se passa em Moimenta da Beira nem em Fornos de Algodres. É na simbólica cidade do Porto, centro  estratégico da actividade económica, social, cultural e política do norte do país.

Quem abandona  mais de 200 000 habitantes à influência do caciquismo da Foz está a dar o sinal de que dormir com o adversário é tão bom ou melhor do que dormir sozinho. E esses concubinatos têm um preço demasiado elevado comparados com os ilusórios ganhos políticos imediatos, desde logo o raquitismo  da vida partidária e o encobrimento da natureza ideológica dessa aliança. Por essa razão, é de  capital importância os apoios às candidaturas da CDU e do BE, de maneira a  impedir que Rui Moreira & PS & amigos obtenham a maioria absoluta neste combate político. Porque o projecto que está a ser construído não deve servir de retaguarda ou dar cobertura a aspirações estranhas ao sentido da estratégia que tem em vista fazer de cada lugar – cidade, vila ou aldeia –  um território que possa ser apropriado pelos seu povo.

Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

6 Comments
  • mm
    J.-M. Nobre-Correia
    Posted at 22:55h, 19 Outubro

    Não esquecer que o atual ministro da Defesa, J. A. Azeredo Lopes, era o chefe de gabinete do presidente da Câmara Municipal do Porto… Não sei até que ponto isso não deve ter pesado na decisão do PS…

    • Cipriano Justo
      Posted at 12:30h, 20 Outubro

      Pese o que pese, e até posso assumir que seja uma das explicações, o Porto é demasiado importante para que um partido que agora se reposicionou politicamente abandone por oportunismo uma autarquia com tanta importância. Resumir esse abandono num “em equipa ganhadora não se mexe” é reconhecer, por outras palavras, a incapacidade para gerar uma candidatura que afirmasse os valores da esquerda. E não é isso que se espera do actual partido socialista.

  • Mfernandes
    Posted at 16:39h, 20 Outubro

    Em equipa vencedora não se mexe só no caso de ser a nossa caso contrário há que montar uma estratégia a vencer

    • Cipriano Justo
      Posted at 18:08h, 20 Outubro

      Na equipa do outro, o treinador que fale por ela, faça as substituições que entender, melhor a táctica, se for caso disso, faça o que entender, a equipa é dele. Que o PS se venha acolher á sua sombra, é lançar a toalha ao chão e deixar de confiar nas suas próprias forças. É desistir do combate, por muito sedutora que seja a recompensa pela rendição.

  • Victor Ferreira
    Posted at 17:51h, 21 Outubro

    Por lapso, na primeira frase do texto está 2016 quando deveria estar 2015. Se outra razão não houvesse, o dia 10 de novembro de 2016 ainda não chegou.

    • Cipriano Justo
      Posted at 18:54h, 22 Outubro

      Obrigado, caro Victor Ferreira. Vai ser emendado.