Oh milhão, milhão, que “limpeza” é a tua?

Oh milhão, milhão, que “limpeza” é a tua?

Nasci quase a coincidir com o ano de abril e sou, portanto, umas das privilegiadas desse legado. Sim, é um privilégio, e só agora me apercebo disso, crescer em Democracia, e fazer parte de uma geração que teve pleno direito à educação gratuita, independentemente da sua condição social e do seu género; e de ter tido sempre acesso à saúde. Nunca nos ocorreu, nesta geração, que um dia tudo o que considerávamos normalizado e adquirido pudesse ruir ou sequer entrar em modo de retrocesso no que respeita aos valores humanos e sociais, e até éticos e morais.

Mas têm-nos entrado vida adentro discursos populistas e atentados impensáveis, até há bem pouco tempo, à democracia portuguesa que, inclusive, foram legitimados em escrutínio no passado dia 10 março. Um milhão de pessoas muito em nome do seu descontentamento, mas também muito por desconhecimento, certamente – (a ignorância e o descontentamento são dois igníferos do populismo)- elegeram 50 pessoas para a Assembleia da República, que prometiam “limpar” Portugal e lhe dar um “banho de ética” (não de estética como aventou uma das deputadas eleitas que além de plagiar um discurso do seu homólogo de extrema-direita argentino evidenciou, mais uma vez,  a sua falta de literacia). São 50 eleitos que não reconhecem a democracia e que querem aniquilar o Estado social, além de quererem limitar a saúde e a educação a quem a puder pagar. E que, além do mais, estão imersos num vasto lamaçal que apontaram e restringiram aos seus opositores políticos. O tal milhão que votou na “limpeza” de Portugal, elegeu precisamente o que os seus eleitos “condenavam” em campanha, senão vejamos: desde candidatos a deputados não falta neste grupo gente a braços com a justiça. E os crimes são vastos e percorrem uma múltipla tipificação criminal: desde pelo menos um condenado por violência doméstica e um outro suspeito de abuso sexual de menor; condenados por difamação que até exaltam o 25 de novembro à saída do tribunal; imigrantes que foram emigrantes ilegais e repatriados e que legitimam a xenofobia, o racismo e um partido anti-emigração; uma ex-feminista e anti-tourada que agora advoga o seu contrário (mas neste partido, tem-se visto, é comum defender uma coisa e o seu contrário no espaço de dias, horas e até na mesma declaração); um emigrante sul-americano em Portugal, negro, que é racista e anti-emigração (afirmando mesmo que “a Europa é branca e  África é negra” (sic)) e que está ligado a artes marciais onde se infiltram pessoas de ideologia nazi, e um elemento salazarista e negacionista, mas que afinal acabou por levar vacinas anti-covid. Mas há também, neste grupo sustentado pelo tal “milhão”, gente ligada ao tráfico de drogas e acusados de corrupção, sim, a grande parangona da campanha eleitoral desta extrema-direita. E há ainda referenciados no Panamá Papers, nos Vistos Gold e na Operação Marquês. Alguns destes cultores de xenofobia e de racismo (que são crimes constitucionais) têm dívidas fiscais ao Estado; são protagonistas de burla qualificada, de falsificação de documentos e de branqueamento de capitais. Outros tantos são insolventes por dívidas à banca e arguidos ou condenados por irregularidades na gestão de organismos públicos, por “esquemas milionários” e por esquemas de fraude. Tudo isto acrescido de apoios financeiros ao partido que não foram declarados à Autoridade Tributária (AT), o que leva a crer que há financiamentos ilegais. Foi, então, nesta “limpeza” que o “milhão” votou? Mas que ideia é a sua? Acham mesmo que à conta destes eleitos continuarão a “comer e beber e a passear na rua” sem condicionalismos de vária ordem, sociais sobretudo, mas também de outro tipo de censura? Mas não é óbvio que este partido não é mais do que um flop armado em justiceiro e justicialista e, como se assistiu recentemente na Assembleia da República (AR), sem qualquer sustentabilidade patriótica, sem palavra, sem urbanidade ou sentido de Estado, tendo comprovado mesmo a sua falta de responsabilidade política, de sentido democrático e de verdadeiro patriotismo.

Mas há mais, para além do “milhão”, quem legitime esta expressão partidária fora deste partido: dirigentes de outras forças partidárias que antes o rejeitava (“não é não”) e que agora se vendem despudoradamente ao mesmo quando pressentem a continuidade do seu poder ameaçado. Ou não fossem também estes, protagonistas de enredos onde cabem teias de influência ao serviço de clientelas, e suspeitos e arguidos de corrupção.

Chegou-se ao tempo em que no nosso país, e parafraseando Brecht “o pilantra político, corrupto e lacaio dos exploradores do povo, é eleito democraticamente”. E “já não há muito tempo para mudar o mundo”.

 

( artigo previamente publicado no Jornal Económico)

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Sílvia Vasconcelos
vasconcelos.silvia@gmail.com

Médica Veterinária, com mestrado em microbiologia alimentar; pós-graduação em comportamento animal e doutoramento em Ciências Veterinárias, componente biomédica sobre os benefícios dos animais para saúde mental dos idosos ,com livro e artigos publicados sobre o mesmo tema. Membro do Movimento Democrático das Mulheres, foi também deputada na Assembleia Legislativa da Madeira. debatendo-se por múltiplas temáticas em que se destacam os direitos dos animais, direitos sociais e dos trabalhadores, direitos dos idosos e das crianças; cultura, ambiente e igualdade de género. Foi ainda actriz no Teatro Experimental do Funchal, integrando vários projectos artísticos de teatro, televisão e locução desde 1986.

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