O que ainda não se sabe sobre o primeiro-ministro

O que ainda não se sabe sobre o primeiro-ministro

António Costa cometeria um grave erro político se, mais à frente, substituísse a equipa do Ministério da Saúde. Não só estaria a dar ouvidos a exigências da direita como não existem argumentos substantivos para o fazer. Enquanto chefe do governo sabia que uma parte significativa da população não poderia estar eternamente confinada. Chegaria o dia em que essa condição teria de chegar ao fim, quando os efeitos da pandemia começassem a dar mostras de menor agressividade. E, inevitavelmente, esse dia chegou. Melhor, foi chegando.

O que é questionável, pelo menos a esta distância, é se o processo de desconfinamento teve o ritmo que o fenómeno permitia. De certa maneira, os dados  que  serviram para tomar a decisão de retoma da normalidade permitida pela pandemia escondiam um risco que não foi acautelado, o risco do deslumbramento com o curso dos acontecimentos. Para quem esteve atento ao desenrolar da situação e analisava a tendência dos valores dos vários indicadores, tudo indicava que desde o número de novos casos até à taxa de letalidade, todos estariam em níveis bem diferentes dos que actualmente se verificam. Sobretudo numa área geográfica tão crítica como a Área Metropolitana de Lisboa, aquela que serve de referência para todas as actividades, da laboral à turística.

Enquanto na fase de instalação e desenvolvimento da pandemia era à equipa da saúde que competia dirigir as operações, e assim aconteceu com os resultados conhecidos, a partir da altura em que o desconfinamento passou a ser a medida que tinha de ser tomada, tanto por razões epidemiológicas como sociais e económicas, era ao governo no seu conjunto que competia encontrar soluções para esse efeito. E essas medidas, ao contrário do que aconteceu, teriam de estar equacionadas, isto é, planeadas, a partir da altura em que foi tomada a decisão de que o confinamento consistia na medida que melhor podia conter a expansão da epidemia. E nesse planeamento a equipa da saúde não podia estar sozinha a equacioná-lo.

Era uma tarefa que dava trabalho a várias equipas ministeriais, entre as quais, a Administração Interna, as Infraestruturas, a Segurança Social e a Saúde, nomeadamente. Era uma tarefa interministerial que havia de ter no terreno quem preparasse, organizasse, executasse, controlasse e avaliasse as medidas de desconfinamento. Não cabia à equipa da Saúde coordenar esse plano. Ou seria o primeiro-ministro a fazê-lo ou em quem ele delegasse. Nada disso foi feito. Evite-se então, pelo menos, o estafado estereótipo de atribuir a outros as responsabilidades que não lhe cabem, mau grado os desacertos que ali e ali se verificaram.

Se António Costa ceder às pressões que já se fazem sentir de  atribuir a Marta Temido a responsabilidade de Boris Johnson não ter aberto um corredor aéreo para Portugal para que os potenciais milhares de turistas ingleses venham gastar uns largos milhares de libras no Algarve e arredores, torna-se num político banal, igual a tantos outros que se limitaram a apontar o dedo a um dos seus quando alguma coisa correu mal. A equação para ultrapassar o que não está a correr bem não contém essa variável, mas de muito trabalho para se recuperar o que não foi feito na altura devida.

Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

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