José Cutileiro: da Antropologia às Relações Internacionais

José Cutileiro: da Antropologia às Relações Internacionais

Em 17 de Maio passado, em Bruxelas, onde vivia, morreu o embaixador José Cutileiro. Oriundo de uma família alentejana, mais precisamente de Évora, com pergaminhos na oposição à ditadura do Estado Novo, que perseguiu sobretudo o seu pai, José Cutileiro foi uma figura de enorme relevo na diplomacia portuguesa, embora tenha entrado na carreira por canais políticos e não pelos usais concursos para a seleção dos diplomatas. Aquando da sua morte, a importância da sua carreira profissional para a diplomacia portuguesa foi já destacada, por exemplo, pela antiga diretora do Público, Bárbara Reis, e pelo seu colega da diplomacia, Bernardo Futscher Pereira (Público, 18 de maio de 2020). Mas José Cutileiro era também um homem de letras, como o JL bem recordou (pela pena de Fernando J. B. Martinho e de Luís Amorim de Sousa) na edição de 3 a 16 de junho, tendo publicado precocemente dois livros de poesia, Amor Burguês (1959) e Versos da Mão Esquerda (1961), e, mais recentemente, livros de crónicas, Bilhetes de Colares, 1982-1998 (2009), sob o pseudónimo de A. B.- Kotter (grande prémio da crónica da APE em 2009), e Inventário (2020). Além da sua carreira profissional, José Cutileiro era presença regular na Imprensa (O Jornal, Independente, Expresso, Antena 1), de que destaco as rubricas «O mundo dos outros» e «In Memoriam» (um obituário de figuras famosas), no Expresso, e as conversas regulares com Ricardo Alexandre e outros, na Antena 1, sobre política internacional (programa «Visão Global»). Todavia, José Cutileiro começou a sua carreira académica e profissional na Antropologia, designadamente com uma tese de doutoramento depois publicada em livro (A Portuguese Rural Society), realizada na Universidade de Oxford, Reino Unido.  Passando muito brevemente em revista três dos seus livros, que considero emblemáticos do respetivo percurso, pretendo com o presente texto tão só recordar o relevante contributo de José Cutileiro para as ciências sociais e políticas, especialmente para a Antropologia e as Relações Internacionais.

José Cutileiro começou por estudar medicina e arquitetura, mas acabou por se doutorar em Antropologia Social no St. Antony’s College, onde também foi Gulbekian Research Fellow durante três anos depois de se doutorar (1968-1971). A sua tese de doutoramento, publicada primeiro pela Oxford University Press (A Portuguese Rural Society, 1971), foi uma obra seminal muito influente nas ciências sociais e políticas portuguesas, nomeadamente na Antropologia, na Sociologia Rural e na Sociologia Política. A edição da obra em Portugal, em 1977, foi concretizada pela Editora Sá da Costa: Ricos e Pobres no Alentejo (Uma Sociedade Rural Portuguesa). A perene importância da obra é também evidenciada pela sua reedição portuguesa, em 2004, pela Livros Horizonte. Esta última prensagem, que tem também uma nota introdutória escrita em 2004 («Quarenta anos depois») e um  posfácio, que acompanhava a edição original portuguesa, escrito em 1977, onde o autor reflete sobre o impacto da transição democrática, do Verão Quente e da Reforma Agrária no Alentejo, nomeadamente nas localidades que foram objeto da sua pesquisa realizada entre 1965 e 1967 («Vila Velha» e «Vila Nova», duas localidades apresentadas sob nomes fictícios – tal como todas as outras pessoas e entidades aí relatadas – e localizadas numa zona raiana do Alto Alentejo, perto de Évora). Esta seminal pesquisa antropológica é baseada num estudo de caso centrado em localidades da zona raiana junto a Évora, mas com ressonâncias para todo o Alentejo, em particular, e para a sociedade portuguesa, em geral. A pesquisa reflete sobre as estruturas sociais e económicas na zona do latifúndio («posse da terra – estratificação social», «família, parentesco e vizinhança»), onde mostra claramente a genealogia da concentração do poder fundiário no Alentejo (com incursões históricas desde os séculos XVI-XVIII até aos anos 1960), da dominação social e económica, mas também do ressentimento político («os ricos roubaram as terras aos pobres», nomeadamente desde a revolução liberal de 1820 com a privatização dos baldios) e do pendor vermelho da região. Mas a pesquisa vai bastante mais longe e mostra também como as estruturas sociopolíticas («a estrutura política», «o patrocinato») e culturais («a religião») concorriam igualmente, de forma coerente e estruturada, para a dominação económica, social e política dos ricos sobre os pobres no Alentejo rural.

Embora efémera face à sua extensa carreira diplomática e na área das Relações Internacionais, depois do doutoramento e da posição de investigador em Oxford, José Cutileiro continuou a (breve) carreira como antropólogo, nomeadamente passando a ensinar Antropologia Social na London School of Economics and Political Science (LSE), 1971-1974. Portanto, quando aconteceu uma das transições relatadas num outro livro de José Cutileiro, Abril e outras transições, Dom Quixote, 2017 (as outras são a transição do próprio para a vida adulta e, já na diplomacia, a passagem sul africana para a democracia, em 1994, e ainda a transição da Federação Jugoslava, em 1991-1995, para o que se lhe seguiu, nomeadamente o seu ocaso, as guerras e o deflagrar da miríade de novos países nos Balcãs), em registo autobiográfico, estava José Cutileiro a ensinar em Londres.  Ou seja, quando aconteceu o 25 de Abril de 1974 e a transição democrática para a democracia, Cutileiro estava ainda dedicado ao ensino da antropologia na LSE, mas logo se dirigiu para Portugal e entrou em contacto com Victor Cunha Rego e Mário Soares.

Como nos conta José Cutileiro, em Abril e outras transições, a sua longa carreira na área das Relações Internacionais (RI) fez-se sobretudo como embaixador, ou seja, acima de tudo como praticante das RI (no MNE e em várias organizações internacionais) e como publicista das RI (nos meios de comunicação social). Foi ainda durante a transição para democracia, em Portugal, que Mário Soares nomeou José Cutileiro como conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Londres (1975), a sua porta de entrada para a diplomacia portuguesa. Ainda chegou a aderir ao PS, mas (como ele próprio relata no livro Abril e outras transições) cedo se revelou não ser um apparatchik, por um lado, e quase de imediato abandonou a curtíssima ligação associativa ao Partido Socialista. A sua longa e prestigiante carreira na diplomacia portuguesa veio comprovar à exaustão que não só não era mesmo um apparatchik como, apesar do canal político para a sua entrada no MNE, tal acesso era inteiramente meritocrático. José Cutileiro foi embaixador em Pretória, acompanhando a transição sul africana para a democracia; foi eleito secretário geral da UEO, 1994-1999 (União da Europa Ocidental, uma estrutura fundamental de Defesa da Europa Ocidental, criada em 1948); coadjuvou Lord Carrington nas mesas de negociação e nos planos para a paz (ao mais alto nível) associados aos conflitos bélicos nas guerras da ex-Jugoslávia, 1992-1993; foi ainda diretor dos Assuntos Políticos do MNE, 1986-1989, ou seja, foi uma espécie de número três da máquina dos Negócios Estrangeiros, apesar de ser um outsider na entrada no MNE. Mas a sua prestigiante passagem na Antropologia, mais como investigador e como professor, teve uma contraparte não apenas prática na área das Relações Internacionais. Ou seja, por um lado, também ensinou Relações Internacionais na prestigiada Universidade de Princeton (Institute for Advance Studies), nos EUA, 2001-2003, onde terá preparado nomeadamente a obra Vida e Morte dos Outros. A Comunidade Internacional e o fim da Jugoslávia, Imprensa de Ciências Sociais, 2003, onde nos dá conta da história da Federação Jugoslava e dos seus antecedentes (nomeadamente no Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos), bem das causas próximas das guerras nos Balcãs e do que estava em causa nessas guerras e nos respetivos planos de paz que ajudou a gizar e a negociar. Ou seja, mesmo na área das Relações Internacionais, aliou sempre a componente prática (a mais importante) com a dimensão teórica (a menos relevante), no ensino, na produção de estudos e na publicação de livros. Por exemplo, e para finalizar: em Abril e outras transições, nas suas reflexões sobre a transição sul-africana para a democracia, que exalta, e os processos de colapso e transformação na ex-Jugoslávia, que critica, reflete aprofundadamente sobre a importância (para os processos bem sucedidos) da qualidade, fiabilidade e visão estratégica das elites políticas, sobre o papel apaziguador ou acicatador das religiões e, em qualquer caso, sobre a importância do fim da Guerra Fria como elemento enquadrador fundamental das duas transições (sul africana e jugoslava).

Publicado originalmente no Jornal de Letras, coluna do autor «Heterodoxias Políticas», na quinzena de 17 a 30 de Junho.

Fonte da imagem: Ponte de Lima Cultural, em 31-1-2019.

André Freire
andre.freire@meo.pt

Professor Catedrático em Ciência Política. Foi diretor da Licenciatura em Ciência Política do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (2009-2015). É desde 2015 diretor do Doutoramento em Ciência Política do ISCTE-IUL. Investigador Sénior do CIES-IUL. Autor de numerosas publicações em livros e revistas académicas. Perito e consultor convidado de várias instituições nacionais e internacionais.

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