DUAS OU TRÊS COISAS QUE SABEMOS DO NEGÓCIO

DUAS OU TRÊS COISAS QUE SABEMOS DO NEGÓCIO

Se continua a ser necessário acudir à pandemia que desde há três meses alterou a situação epidemiológica em Portugal e o modo de vida da população naquilo que se torna indispensável para manter a dignidade dos padrões de vida, ao mesmo tempo há que acudir às condições sociais resultantes dos efeitos das medidas que foram necessárias tomar para a combater. Nesta altura ambas são prioridades que o governo deve ter em conta para que os bons resultados alcançados no combate à pandemia sejam anulados pelo atraso na tomada de decisões quanto à retoma das melhores condições de vida possíveis da população, principalmente daquela que ficou refém de uma conjuntura onde se entrava mas cuja porta de saída não está à vista, pelo menos na parte que torne estável e previsível a reorganização social que vai implicar.

Estamos, portanto, numa situação em que só um forte investimento e apoio do Estado está em condições de intervir, porque é ele que detém os mecanismos para alterar o que a pandemia desconjuntou. Se nestes três meses, o tecido social foi sendo rasgado pela paralisia do aparelho produtivo e a decorrente onda de despedimentos, perda de salários e diminuição de rendimentos, a recuperação dos bens perdidos não será a mesma nem será constituída pelas soluções  a que nos habituámos a conhecer e lidar. Há uma rotina da vida que se alterou;  mas mesmo as rotinas exigem aprendizagem. E sobretudo aprendizagem política. Porque à sombra da calamidade, e com os argumentos que a calamidade ia oferecendo sem exigir nada em troca, foram- se construindo, umas, subtis, outras, descaradas, alianças que estão a servir de argumento para a recomposição do que, durante mais de quarenta anos se arrumou nos principais braços da balança político-partidária, a esquerda e a direita.

 Esta divisão, embora com as variações que se foram conhecendo,  desde o I Governo Constitucional até à solução encontrada na sequências das eleições legislativas de 2015, poderá estar prestes a ruir, à custa da constituição de um bloco de forças que tende a tornar dispensáveis as forças políticas que durante os anos da recuperação económica tornaram possível que ela se realizasse num ambiente em que todos tinham uma palavra a dizer. É essa palavra que está ameaçada. Não de ser ouvida, mas de ser escutada. E a verificar-se, também uma parte substancial do eleitorado, senão a maioria, ficaria sem voz, pelos menos sem voz que se fizesse ouvir com a necessária autoridade.

É por essa razão que, nos meses que ainda restam, se torna necessário, mesmo urgente, que as eleições presidenciais sejam disputadas confrontando visões do que é desejável que seja a vida dos portugueses nos anos que aí veem. Porque, como se viu há meia dúzia de anos atrás, os ingredientes de cada solução são vários. E  cada combinação responde sempre a necessidades  diferentes e a distintos interesses sociais.   

 

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Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

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