Condições de durabilidade do governo de esquerdas? (II) (continuação)

Condições de durabilidade do governo de esquerdas? (II) (continuação)

Para olhar o futuro com lucidez, mas também otimismo, é preciso sabermos das virtualidades e dos riscos, mas também das condições de durabilidade, da solução política que sustenta o XXI governo constitucional. É esse o objeto deste conjunto de dois artigos: «Condições de durabilidade do governo de esquerdas? I & II». Take II (continuação):

 

Para cimentar a aliança, ou dito de outro modo, para que a solução de governo de esquerdas tenha condições para funcionar de forma estável e duradoura, é crucial ainda que os resultados da governação, ou seja, os outputs das políticas, sejam positivos e que todas e cada uma das forças políticas que compõem a solução possam reivindicar e apresentar claramente os seus contributos específicos e os seus ganhos específicos com a aliança. Nomeadamente, a esquerda radical sendo capaz de apresentar a sua força para fazer o PS infletir à esquerda, sem perda de identidade própria e sem erosão eleitoral (significativa), designadamente evidenciando o seu papel nas medidas mais emblemáticas (e populares, e progressistas) do XXI governo constitucional; o PS sendo capaz de apresentar como moderada, compatível com a opção europeia (desde sempre estratégica para o partido) e pagadora eleitoralmente a sua nova política de alianças. Parece simples, mas poderá não ser assim tanto se e quando as sondagens indicarem refluxos significativos.

 

Outros dois elementos que poderiam ajudar, e muito, a cimentar a solução de governo de esquerdas como estável e duradoura seria, primeiro, o lançamento alianças (pré-eleitorais) de esquerdas nos grandes centros urbanos já para as autárquicas de 2017 (das notícias até agora veiculadas parece que tal não irá ocorrer, antes «uma política de não agressão» entre as esquerdas: não será a solução ideal, mas poderá ser o meio caminho possível neste contexto…) e, segundo, começar a pensar esta solução política para além da presente legislatura.

 

Mais, a doxa dominante em Portugal e na Europa, nos mass media (em Portugal, não há hoje um único jornal mais alinhado à esquerda/ao centro-esquerda; nas TVs é o que se vê…, e mesmo a RTP está hoje contaminada pelo «ar (neoliberal) do tempo», incapaz de ser o espaço de pluralismo democrático que já foi, por vezes, no passado), na sociedade (por exemplo, os Think Tanks, em Portugal, são maioritariamente alinhados à direita / ao centro-direita e ligados a grandes interesses empresariais: veja-se, por exemplo, o Compromisso Portugal, muitos de cujos membros estão aliás ligados à fundação do jornal em linha, Observador, a Fundação Francisco Manuel dos Santos, o Projeto Farol, etc.) e no sistema político, etc., são de molde a favorecer a hegemonia ideológica (e política) da direita / do centro-direita. Ora a aliança de esquerdas pode ser um importante contributo para contrabalançar este status quo enviesado para a direita / para o centro-direita, dito de outro modo: para contrabalançar a hegemonia da direita (e do centro-direita) no espaço público. Assim haja da parte dos lideres dos partidos de esquerda a clarividência política para o perceber, e assim haja da parte dos dirigentes do PS, do BE, do PCP e do PEV a vontade política para tomarem as medidas necessárias para o conseguir.

 

Neste domínio, a superação do cisma sindical (CGTP vs. UGT) seria também uma peça chave para cimentar a aliança no terreno social e a longo prazo. Tal seria benéfico seja para a luta sindical propriamente dita, seja para a produção de ideias / para contrabalançar a hegemonia da direita no espaço público (mass media, Think Tanks, em suma na produção de hegemonia ideológica).

André Freire
andre.freire@meo.pt

Professor Catedrático em Ciência Política. Foi diretor da Licenciatura em Ciência Política do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (2009-2015). É desde 2015 diretor do Doutoramento em Ciência Política do ISCTE-IUL. Investigador Sénior do CIES-IUL. Autor de numerosas publicações em livros e revistas académicas. Perito e consultor convidado de várias instituições nacionais e internacionais.

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