Condições de durabilidade do governo de esquerdas? (I)

Condições de durabilidade do governo de esquerdas? (I)

Para olhar o futuro com lucidez, mas também otimismo, é preciso sabermos das virtualidades e dos riscos, mas também das condições de durabilidade, da solução política que sustenta o XXI governo constitucional. É esse o objeto deste conjunto de dois artigos: «Condições de durabilidade do governo de esquerdas? I & II». Take I:

 

Então, por que é que esta solução de governo de esquerdas poderá ter condições para funcionar de forma estável e duradoura (tal como tem acontecido no passado, e muito bem, com as alianças no quadrante direito do nosso espectro político-ideológico)?  Naturalmente, o mais fácil e mais intuitivo, desde logo porque ligado ao pensamento dominante, que naturalizou a ideia de falta de entendimento entre as esquerdas portuguesas como algo natural e politicamente insuperável e até desejável, é pensar que tal solução do «governo de esquerdas» dificilmente terá condições para funcionar de forma estável e duradoira. Claro que os fatores que tornam muito difícil este entendimento, hoje e no futuro próximo, são muito fortes e têm um longo lastro histórico e muitas forças (sociais, sindicais, económicas, mediáticas e políticas; o status quo na União Europeia) combatendo-o de forma mais ou menos transparente, mais ou menos assumida, nomeadamente nos mass media.  Mais, as forças hoje dominantes na União Europeia (hoje e de há longo tempo a esta parte…) tudo farão para que a solução não funcione porque ela representa precisamente, por ora, uma tentativa (mesmo se pragmática e moderada, como efetivamente é, embora seja apresentada a contrario pelos seus detratores) de mudar de maioria, de mudar de governo e de mudar de políticas na União Europeia, e tal gera muito resistência no status quo europeu, o qual estará eventualmente disponível para aceitar uma mudança de maioria e de governo, mas não para uma mudança efetiva de políticas.

 

Porém, a verdade é que contra a ação de todas essas forças e da naturalização do «desentendimento» entre as esquerdas como insuperável, pela doxa dominante, a verdade é que tal aconteceu, qual chegada de Godot na peça (emblemática do chamado teatro do absurdo) de Samuel Beckett (na qual, na verdade, Godot nunca chega) (Cipriano Justo, «Chegou o senhor Godot», Público, 2/11/2015)». Idêntica surpresa à que ocorreu com a formação do XXI governo constitucional, e dos acordos políticos que lhe subjazem e lhe o tornaram possível, tem ocorrido com a perenidade do governo de esquerdas desde novembro de 2015 até hoje. Portanto, não é improvável que as surpresas possam continuar até ao fim da legislatura, e vejamos por quê.

 

A tentativa de algumas forças sociais, políticas e mediáticas (o anterior Presidente, Cavaco Silva, os partidos de direita, os mass media mainstream) de excluir os partidos da esquerda radical da esfera governativa tem funcionado como cimento do próprio entendimento entre as esquerdas, levando a um cerrar de fileiras. Tal oposição poderá continuar a cimentar a aliança.

 

Mas um dos fatores fundamentais para a durabilidade desta aliança é a disponibilidade do PS para a mesma, aceitando alinhar-se mais à esquerda e ter uma posição mais crítica face à União Europeia. De facto, as alianças dos socialistas com a direita por essa Europa fora e não só (em aliança ou em convergência de políticas: Grécia, Alemanha, França, Espanha, Hungria, Polónia, Israel, Áustria, etc.) não têm sido muito pagadoras eleitoralmente, antes pelo contrário: ou seja, o exemplo do risco de Pasokização não vem só Grécia, mas é muito real e transversal na Europa (e não só). Ver a este respeito: the State of Affairs in –Europe – Berlin Seminar, e organizado por Cornelia Hildebrandt,   Berlin, Rosa Luxemburg Foundation – Transform. O risco de Pasokização para o PS e a severa compressão da democracia na Europa (ou seja, pode-se mudar de maioria e de governo, mas não se pode mudar de políticas) são fortes incentivos para que o PS continue a aceitar alinhar-se mais à esquerda, por um lado, e a ter uma posição mais crítica face à União Europeia, por outro lado. Todavia, o PS sempre foi um partido europeísta e, por isso, para o cimentar da aliança, a saudável pressão eurocética da esquerda radical sobre o PS deve também ser feita com realismo e pragmatismo pois se for levada muito longe pode levar ao colapso da aliança (o maximalismo do Syriza face à UE, na Grécia, no primeiro semestre de 2015 pode ser o exemplo a evitar): ou seja, o cimentar da aliança dependerá muito da continuação do pragmatismo e da moderação das (saudáveis e desejáveis) exigências da esquerda radical, tal como tem acontecido até aqui.

 

 

André Freire
andre.freire@meo.pt

Professor Catedrático em Ciência Política. Foi diretor da Licenciatura em Ciência Política do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (2009-2015). É desde 2015 diretor do Doutoramento em Ciência Política do ISCTE-IUL. Investigador Sénior do CIES-IUL. Autor de numerosas publicações em livros e revistas académicas. Perito e consultor convidado de várias instituições nacionais e internacionais.

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