As bases neuronais do consenso, segundo MRS

As bases neuronais do consenso, segundo MRS

Quando uma personalidade com o estatuto de Presidente da República faz afirmações que podem deixar incrédula e estupefacta uma criança em idade de brincar às casinhas, então devemos começar a preparar-nos para o que aí vem. Veja-se este raciocínio, digno dos mecanicistas do século XIX: “Já imaginou o que é consenso entre biliões de neurónios? Se é possível esse consenso, há de ser possível o consenso entre meia dúzia de partidos” http://24.sapo.pt/atualidade/artigos/marcelo-diz-que-os-especialistas-do-cerebro-dao-razao-ao-seu-apelo-aos-consensos.

Desenvolvendo a conclusão, teríamos: quando os biliões de neurónios se põem de acordo entre si, isso só acontece porque, nas palavras do Presidente, “cada neurónio tem uma visão do mundo, e luta com outras visões do mundo e são biliões de neurónios, por áreas”. Primeiro tenho que ter uma conversa com os especialistas das neurociências para saber se foi isto que explicaram ao Presidente, ou se a explicação que lhe deram foi aproveitada pela individualidade para justificar a sua teoria sobre a construção de consensos. Mas admitamos, por momentos, que em cada cérebro as coisas se passavam tal como o senhor afirma. O que fica por dizer é que em cada partido há milhares de cabeças, cada uma com milhões de neurónios e com cada cabeça a interagir e a confrontar-se com outras cabeças e com outros tantos milhões de neurónios.

Veja-se agora como o Presidente transpõe para a vida política o que é do domínio das neurociências: “Dentro de um Governo, dentro de um parlamento, dentro de um sistema político, cada qual tem a sua visão, têm de compor as visões, só no momento em que há consensos é que há preparação para uma decisão”. Logo, é legítimo inferir que enquanto  os neurónios dos dirigentes de cada formação partidária não estiverem suficientemente espremidos, exaustos e desanimados, não há decisão. A regra da maioria, a democracia, não seria reconhecida pelos neurónios. No mínimo, ficariam frustrados e  irritados com a fuga à ortodoxia,  ficando-se por saber  se estes distúrbios não serão a explicação mais plausível para a origem dos glioblastomas. Porém, a ser aplicável, a teoria, talvez fosse capaz de poder ter, ainda assim, algum sentido, se e quando os neurónios se pusessem de acordo quanto à distribuição, segundo as necessidades de cada um,  da paz, do pão, da habitação, da saúde e da habitação, como lá diz o Sérgio. Essas, sim, são as bases materiais do consenso. Mas como isso ainda está longe de acontecer, vamos, então, continuar a ter uma feroz luta de classes entre neurónios. Para já o consenso está em francas dificuldades.

Daqui até à defesa da ditadura do consenso, é só um passo. Ao que isto já chegou, e onde chegou.

Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

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