A PARÁBOLA DO CASAL DE ESTORNINHOS

A PARÁBOLA DO CASAL DE ESTORNINHOS

Nos próximos seis meses existem assuntos políticos que vão dominar a discussão política da vida partidária, mas também a dos portugueses.  A incerteza quanto ao desenvolvimento da pandemia, as consequências sociais da paragem da produção e da economia, e as eleições presidenciais. Apesar de os principais indicadores terem vindo a mostrar, sobretudo desde há um mês a esta parte,  que as autoridades sanitárias têm adoptado as medidas que até agora se têm revelado aquelas que melhores resultados têm conseguido, não é certo que a liberalização da vida social, mau gado as precauções que têm sido aconselhadas, não venha a produzir efeitos adversos na situação epidemiológica. Quando se está perante uma pressão social que obriga ao isolamento individual, o período de transição para a retoma de grande parte das rotinas  é o processo que mais cautelas impõe, porque é aquele que mais incertezas contém, em consequência do que todos e cada um entende por transição. Por isso, este é o período em que as mensagens  devem conseguir combinar a generalidade das medidas que já vinham a ser tomadas, com a especificidade e as necessidades de populações-alvo, cuja variabilidade de percepção da situação é muito distinta. Daí o risco de, ao  padronizar a comunicação com a população, as autoridades de saúde não levarem em linha de conta as diferenças entre elas. Gerir um período de transição, seja qual for a natureza da situação, exige um apurado sentido de oportunidade e estratificação, porque também neste aspecto os riscos não são os mesmos.

Se no início da pandemia a capacidade de  resposta dos serviços de saúde dominou toda a discussão sobre as soluções a adoptar, agora que “picos” e “planaltos saíram do léxico das discussões técnicas, são as consequências socio-laborais que estão a sobrepor-se aos aspectos técnico-profissionais, com o respectivo  impacto  sobre as  condições de vida, cada vez mais abaixo do que é admissível. O desemprego regressou, a diminuição dos rendimentos voltou a sentir-se, a actividade produtiva reduziu-se drasticamente, a economia, salvo raros segmentos do mercado, está estagnada, no curto espaço de 90 dias, o país viu-se subitamente a viver uma realidade para a qual nem estava preparado nem habilitado a enfrentá-la com os recursos que tinha. Ainda não tinha sido restabelecido o fôlego de quatro anos de austeridade, quando essa realidade volta a colocar-se, embora o discurso oficial procure fugir dele.

Por isso, fazer apelo e facilitar as condições da capacidade produtiva do país não podia deixar de ser feito, mas é escasso e os seus efeitos só se farão sentir no médio prazo. Entre encerrar para depois retomar tem a dnsidade do desespero das pessoas e o silenciamento dos  projectos de vida que, nesta situação ficaram a aguardar por medidas que levam tempo a aplicar e nem sempre são as mais desejáveis. É nesta conjuntura que as instituições da União Europeia devem ter um papel que substitua a capacidade de resposta de cada Estado. Solidariedade e cooperação é o que, nesta altura se exige de todos, seja qual for o grau de riqueza de cada um. É este o plano que pode salvar vidas da indigência, porque é disso que agora deve também deve começar a tratar-se. Aproveitando a oportunidade de um acontecimento inesperado para reconstruir uma União Europeia que se encontrava aconchegada na sua medíocre capacidade de tomar iniciativa.

Aproveitando uma conjuntura que lhe é politicamente favorável, o Presidente da República, fazendo de conta que não está, há muito que está a fazer contas á sua reeleição. Ele passou a conduzir, no plano mediático, as operações de combate à pandemia do covid19 e da pobreza, com a ajuda insubstituível do secretário-geral do PS. Ao olharmos em volta, o que distingue politicamente os portugueses, tirando a cor das camisolas, há uma mancha cinzenta que tomou conta do discurso que rodeia o que deviam ser escolhas que se distinguissem pelo que as torna diferentes. E neste aspecto, a direcção do PS está a desempenhar um papel que já está longe, bastante longe, dos idos de 2015. E não se trata de danças de salão. Trata-se de pôr em marcha uma campanha que, qualquer que seja o resultado, represente, agora e no que se vai seguir às eleições presidenciais, a diferença de projectos sociais e políticos das duas grandes famílias políticas. Seria desastroso e um erro incorrigível, a parte de leão situada á esquerda do espectro político, diluir-se numa sopa que não dá sequer para alimentar um casal de estorninhos.

Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

No Comments

Post A Comment

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.