Zeus: breves reflexões sobre um filme

Zeus: breves reflexões sobre um filme

Com base numa biografia política e cultural de um dos presidentes da I República Portuguesa, Manuel Teixeira Gomes, o realizador Paulo Filipe Monteiro oferece-nos um magnifico filme, «Zeus», que vai muito além dos aspetos biográficos deste heterodoxo Presidente, refletindo também sobre o estertor final da I República, sobre as suas tensões, querelas internas e questiúnculas, mas também sobre a ascensão do autoritarismo em Portugal (e a oposição ao mesmo).

Manuel Teixeira Gomes foi eleito Presidente da I República Portuguesa em 6 de agosto de 1923 e viria a demitir-se em 11 de dezembro de 1925. Insatisfeito com a situação política, social e cultural, nomeadamente com os sinais da ascensão do autoritarismo em Portugal. Manuel Teixeira Gomes vai demitir-se quase no final do regime republicando: recordemos que a ditadura militar será instituída em 28 de maio de 1926, e em 1933 teremos a constitucionalização da ditadura do Estado Novo com Salazar ao leme.  O filme retrata bem as constantes tensões, querelas internas e questiúnculas entre a elite do regime, o apelo constante aos militares para a tomada do poder, a repressão aos operários e sindicalistas nesta fase final do regime (pelo menos), os assassinatos políticos, etc., e, sobretudo, o modo como tal contexto desagradava profundamente ao Presidente. Este, porém, confessa-se (no filme) algo impotente, tendo em conta o figurino institucional do regime: mesmo depois da reforma constitucional do inicio dos anos 1920, que reforçaram o papel do chefe de estado no sistema político, o presidente tem poucos poderes… O desagrado com a situação política e social do regime vai levar Manuel Teixeira Gomes a demitir-se e emigrar definitivamente para a Argélia, a bordo do cargueiro «Zeus» (um Deus não só grego, mas também berbere, esclarece-nos o filme), em 1925. Aí passará o resto dos seus dias com esporádicos contactos com a oposição à ditadura do Estado Novo, e ainda mais esporádicos contactos com jornalistas portugueses. Já mais perto da sua morte (supõe-se), em 1941, um jornalista do Diário de Lisboa vai entrevistá-lo…  e aí ficamos a saber das suas ligações aos movimentos de oposição à ditadura.

Mas Manuel Teixeira Gomes era também um autor de Novelas Eróticas, que ainda hoje podemos ler em edição da Relógio de Água, por exemplo. E tal faceta era também um alvo de ataque da sua personalidade política, pelo menos pelas forças proto-fascistas que clamavam por uma intervenção militar, mas também por austeridade material e moral. O que não ficou claro para mim foi se a faceta cultural heterodoxa de Manuel Teixeira Gomes era alvo de ataque apenas pelas forças autoritárias em ascensão ou tal incluía também (pelo menos) as fações mais conservadoras do regime republicano. Recorde-se, entre parêntesis, que o Marquês de Sade foi perseguido quer pelo ancien regime, quer pelos regimes liberais burgueses que lhe sucederam após 1789. Uma coisa é certa, um certo carácter subversivo da literatura erótica, que mais tarde Natália Correia, Luiz Pacheco e Fernando Ribeiro de Mello, entre muitos outros, viriam a comprovar durante a ditadura, é muito bem elucidado no filme pela pulsão repressiva evidenciada pelos proto-fascistas, e pelos ataques político-culturais ao presidente por causa disso mesmo.

Um filme que é baseado numa biografia cultural e política de Manuel Teixeira Gomes mas que vai muito para além disso refletindo sobre o estertor do regime republicano e sobre a ascensão do novel regime autoritário e, posteriormente, sobre o oposição ao mesmo. Uma oposição que tinha também uma forte dimensão cultural e que, adicionalmente, teve na literatura erótica um dos seus esteios.  No final, recorda-nos ainda Paulo Filipe Monteiro: a oposição ao regime autoritário teria depois (nos anos 1960) outros desenvolvimentos muito importantes a partir de Argélia com a «Rádio Voz da Liberdade» – Portugal Livre, onde pontificava nomeadamente Manuel Alegre, outro grande expoente da oposição política e cultural ao regime autoritário. Um filme cujo visionamento se recomenda vivamente, pois claro, e que pode ainda ser encontrado e visto em DVD, pelo menos: ver aqui.

André Freire
andre.freire@meo.pt

Professor Catedrático em Ciência Política. Foi diretor da Licenciatura em Ciência Política do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (2009-2015). É desde 2015 diretor do Doutoramento em Ciência Política do ISCTE-IUL. Investigador Sénior do CIES-IUL. Autor de numerosas publicações em livros e revistas académicas. Perito e consultor convidado de várias instituições nacionais e internacionais.

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