Votos de bom cativeiro

Votos de bom cativeiro

Mais do que cativa, como hoje afirmou o ministro das Finanças na discussão que teve lugar na Assembleia da República sobre o orçamento do Estado, referindo-se à oposição https://www.publico.pt/economia/noticia/orcamento-esta-diferente-centeno-explicase-1749654#,  ela está no cativeiro político, porque foi lá colocada pelos egípcios, que a derrotaram na batalha de 4 de Novembro de 2015. E apesar de todas as prerrogativas desse cativeiro – liberdade de expressão e movimento, acesso a todos os bens de consumo, direito a constituir família e contratar baby sitter, a ter conta bancária e adquirir propriedades móveis e imóveis, representação política e social, defesa dos seus valores ideológicos e culturais – mesmo assim, e por alguma razão, não há maneira de descortinar o caminho da terra prometida.

Será porque o seu Moisés, considerando a avançada idade na chefia das tribos, já não consegue atinar com o sítio onde guardou as doze tábuas? Ou terão sido as tábuas que se revoltaram contra Moisés e não se querem mostrar porque estão fartas de interpretações avacalhadas? Estará a dar-se o caso de estar em marcha uma conspiração para o substituir na guarda do tabernáculo, querendo uns ir para um lado e outros nem por isso? De qualquer maneira, e qualquer que seja o ângulo por que se analise a questão, certo é que reina a desorientação na grande tenda. São conhecidas as dores provocadas pelo cativeiro, e os casos e casozinhos invocados pelos cativos não têm passado, afinal de contas, de manifestações dessa dor. Não mais do que isso, e só isso. Assim, nem  camelo nem dromedário querem ter a ver alguma coisa com eles.

Enquanto assim for e durar, as costas do povo  ganham músculo. E o povo, na sua imensa generosidade, vai tratando dela, a oposição, seguindo e aplicando escrupulosamente a Declaração dos Direitos Humanos como se todas as injustiças e humilhações que os agora cativos lhe causaram não tivessem passado de um episódio que querem ver bem resolvido. Não querem que lhes falta nada. Só querem que S. Bento não esteja na rota da sua longa marcha, mesmo que para o efeito se tenha de reconstituir o excêntrico fenómeno  do mar Vermelho.

Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

2 Comentários
  • Eurico Dias
    - 02:57h, 03 Novembro

    Uns tabaquitos e umas revistas velhas para lhes amenizar um longo cativeiro.

    • Cipriano Justo
      - 17:46h, 03 Novembro

      E já agora uns garrafões de água lisa.