Uma entrevista desperdiçada…

Uma entrevista desperdiçada…

Média : Poderia ter sido um grande momento de informação dos cidadãos. Mas isso supunha que as regras elementares do género jornalístico fossem observadas de modo a permitirem uma abordagem séria da atualidade…

Não é todos os dias que um primeiro ministro dá uma longa entrevista a uma televisão, seja qual for o país da Europa ocidental. E quando isso acontece o(s) jornalista(s) encarregado(s) da entrevista procura(m) fazer que ela marque seriamente a agenda jornalística e política. Nada disso aconteceu porém com a entrevista dada esta noite por António Costa à televisão pública.

Confrontado durante 50 minutos a dois diretores adjuntos da informação, assistimos a uma entrevista dececionante. Uma entrevista largamente desperdiçada em que um diretor adjunto, debutante em matéria de audiovisual, pretendeu mostrar que conhecia muito bem os assuntos e as respostas a dar às perguntas que fazia. Dito de outro modo : um debutante de idade madura armado em sabichão, interrompendo constantemente o entrevistado, incapaz de uma qualidade indispensável para um entrevistador : saber ouvir o que o entrevistado tem para dizer…

Ao lado do debutante manifestamente incompetente em matéria audiovisual, outro diretor adjunto mais ponderado, menos intempestivo, mas a quem só os possíveis conflitos interessavam. Conflitos possíveis entre o governo e os seus aliados parlamentares da esquerda. Conflitos provavelmente camuflados com o líder do maior partido de oposição. Conflito potencial enfim com o presidente da República. Tradução de uma certa conceção do jornalismo em que os seus profissionais procuram absolutamente trazer à luz do dia rivalidades, confrontações, se possível desencadeando-as…

Cinquenta minutos depois, nada de bem substancial ficou da entrevista com o primeiro ministro. Porque não era essa a preocupação dos diretores adjuntos. E muito menos era preocupação deles procurar fazer melhor compreender aos cidadãos como vai o governo da Nação : seria aliás pedir de mais a entrevistadores que procuravam “show” e “scoops”…

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J.-M. Nobre-Correia
JM.NobreCorreia@gmail.com

Professor emérito da Université libre de Bruxelles, foi nomeadamente titular das cadeiras de Teoria da Informação Jornalística, de História dos Média na Europa e de Socioeconomia dos Média na Europa (1970-2011). Paralelamente, foi professor convidado na Université Paris II (1996-2006), professor visitante na Universidade de Coimbra (1996-2001) e membro do conselho científico do Europäisches Medieninstitut de Düsseldorf (1995-2004).

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