Terrorismo e Refugiados: Hipocrisia, Ineficácia e Descrédito

Terrorismo e Refugiados: Hipocrisia, Ineficácia e Descrédito

A recente vaga de atendados terroristas perpetrados por extremistas islâmicos (ambos reivindicados pelo chamado Estado Islâmico, ISIL), no Reino Unido, geraram as usais e absolutamente justificadas ondas de indignação, nomeadamente na Europa, em particular, e o no Ocidente, em geral. Todavia, praticamente ao mesmo tempo tivemos, primeiro, a visita do novel Presidente americano, Donald Trump, ao Médio Oriente, com grande ênfase na passagem inicial na Arábia Saudita, e com o consecutivo anúncio de um chorudo negócio de venda de material militar a este país. E, segundo, tivemos a tentativa (ainda em curso) de isolamento do Qatar pela Arábia Saudita e pelos seus aliados na zona do Golfo Pérsico, com o beneplácito americano, devido a alegado financiamento de grupos terroristas (como sejam a Irmandade Muçulmana ou grupos de combatentes jihadistas na guerra da Síria).

Aquele conjunto de situações fez-me lembrar um recente livro do «filósofo, psicanalista lacaniano e ativista político» (de raiz pós-comunista), Slavoj Zizek, intitulado «Contra a dupla chantagem. Refugiados, terror e outros problemas com os vizinhos»[1], onde ele chama a atenção para a enorme teia de contradições nas políticas dos Estados Ocidentais no combate ao terrorismo e para a resolução do problema dos refugiados. Tal teia de contradições, a que se somam, segundo Zizek, vários «tabus da esquerda» que urge superar, torna o combate ao terrorismo completamente ineficaz, bem como torna também ineficazes as «soluções» apresentadas até agora para resolver o problema dos refugiados. Mais, correm o risco de descredibilização por serem todas tão ostensivamente contraditórias e, amiúde, contrárias a alguns valores fundamentais das nossas sociedades democráticas (vide o acordo com a Turquia para a questão dos refugiados). Parece-me, pois, que vale a pena usar o livro de Zizek não só para melhor compreendermos a situação atual, descrita acima, mas também para pensar sobre «O que fazer?».

As contradições das potências ocidentais (EUA, França, Reino Unido, Alemanha, etc.) na solução do problema dos refugiados, por um lado, e na luta contra o terrorismo, por outro, estão bem evidenciadas não só nas «soluções» encontradas, mas também na política de alianças desenhada, em cada momento e no médio-longo prazo. Quanto ao problema do grande êxodo de refugiados para a Europa, é bem-sabido que a guerra civil na Síria, nomeadamente o combate entre as milícias do ISIL (e outras também de pedigree fundamentalista islâmico) e as forças governamentais do governo de Assad, são a sua fonte fundamental. Logo, derrotar o ISIL no terreno sírio sempre foi uma peça fundamental para reduzir a intensidade do conflito, chegar a uma solução política e estancar a alimentação do êxodo de refugiados, contribuindo para a resolução dos problemas na origem. Porém, por um lado, só depois dos atentados em Paris (2015) é que os Europeus verdadeiramente acordaram para necessidade de derrotar o ISIL na Síria (e no Iraque), ainda que nem mesmo assim com total empenho e consequência, pois até aí estavam apenas concentrados em derrotar Assad.[2]  Por outro lado, diz-nos Zizek, citando o jornalista David Graeber, se a Turquia (aliada dos Ocidentais na NATO e, alegadamente, no terreno desta guerra) tivesse feito ao ISIL o mesmo bloqueio que fez aos curdos do PKK e às milícias curdas do YPG, na Síria, há muito que o ISIL teria sido derrotado. Aliás, quer a Turquia, empenhada sobretudo em combater os curdos (no Iraque e, acima de tudo, na Síria e na Turquia), quer a Arábia Saudita, quer mesmo Israel, empenhados sobretudo em combater as milícias xiitas (na Síria e no Líbano, e por essa via o poder geopolítico Irão), têm mostrado, na prática, uma certa tolerância face ao ISIL, tornando a sua derrota muito mais difícil.[3]

Semelhantes são as contradições das potências ocidentais na luta contra o terrorismo. Por um lado, sabemos que o problema da Palestina é um dos leitmotifs fundamentais invocados pelo islamismo radical, e neste domínio os avanços são mínimos, quando não mesmo caracterizados pela política de um passo à frente e vários atrás (vide o grande retrocesso com Trump, em comparação com os magros avanços de Obama, face a Israel).[4] Por outro lado, fazer da Arábia Saudita e da Turquia os grandes aliados (dos EUA e da Europa) no Médio Oriente, diabolizando o Irão, parece a receita certa para o desastre. É obvio que o Irão também sempre patrocinou o terrorismo islamita, nomeadamente no Líbano e na Faixa de Gaza, mas esse papel comparado com o da Arábia Saudita é secundário; idem para o caso do Qatar. Depois da invasão do Afeganistão pela URSS, a Arábia Saudita (apoiada pelos EUA) foi o principal patrocinador (espiritual e financeiro) dos jihadistas anticomunistas que mais tarde viriam a gerar os Talibãs. Desde então, é sabido que a Arábia Saudita tem sido um dos mais fortes patrocinadores (espirituais e financeiros) do ultraconservadorismo wahabita pelo mundo fora, assim como do terrorismo islâmico de base sunita. Tanto assim é que, segundo informações libertadas pela Wikileaks em 2010, os serviços secretos dos EUA consideravam a Arábia Saudita «o maior financiador do terrorismo sunita no mundo».[5]  Adicionalmente, quando comparamos o grau de abertura dos sistemas políticos do Irão e do Qatar com o da Arábia Saudita ficamos impressionados com o grau de liberalização dos primeiros face ao segundo.  É por tudo isso que, por um lado, a aliança primordial com os sauditas (e os turcos) para derrotar o terrorismo soa como pouco ou nada credível. E, por outro lado, não se percebe como é que será possível uma derrota do ISIL, na Síria e no Iraque, bem como soluções políticas estáveis e duradouras para estes dois países, sem um forte apoio dos curdos e do Irão (bem como dos xiitas do Iraque).[6]

No capítulo «que fazer?», vejamos agora que mais nos propõe Zizek. Em primeiro lugar, propõe-nos superar a centragem nas «guerras culturais», ou no «choque de civilizações», por um regresso à abordagem da «luta de classes». Por um lado, porque não há apenas um choque entre civilizações, há também vários choques no seio de cada uma das civilizações (entre americanos e russos, entre sunitas e xiitas, etc.). Por outro lado, porque muitos dos problemas com o êxodo de refugiados (e também com o terrorismo) têm na sua base uma destruturação das culturas e economias locais fruto de uma mercantilização de todas as áreas da vida em todas as zonas do globo, em resultado da extensão generalizada e quase sem freios do capitalismo neoliberal. Por isso, o regresso à luta de classes é necessário para uma perspetivação correta dos problemas subjacentes e para uma aliança «dos de baixo» nas várias zonas do global atingidas pela mercantilização geral. Segundo, é preciso superar alguns tabus da esquerda para um combate mais certeiro e eficaz. Nomeadamente, é preciso recuperar e projetar, sem quaisquer complexos (eurocentrismo ou neocolonialismo), a tradição europeia e ocidental emancipatória (dos direitos humanos, da igualdade, do Estado Social, etc.): essa tradição é um dos instrumentos mais eficazes de combate ao capitalismo neoliberal globalizado.[7]  Outros tabus a quebrar são ainda recusar a ideia de que defender os modos de vida autóctones é uma ideia protofascista[8], ou ainda recusar a ideia de que uma critica assertiva do islamismo é incorrer necessariamente numa deriva islamofóbica.[9]

Texto originalmente publicado na coluna «Heterodoxias Políticas», do Jornal de Letras, desta feita na edição de 21 de Junho a 4 de Julho de 2017. 

 

[1] Ver Slavoj Zizek (2016), Against the double blackmail. Refugees, Terror and Other Troubles with the Neighbours, Londres, Penguin Random House.

 

[2] Ver Charles Glass (2016), Syria Burning: a Short History of a Catastrophe, Londres, Verso Editions.

[3] Ver Charles Glass (2016), op. cit., Slavoj Zizek (2016), op. cit.

[4] Ver Dan Smith (2016), The Penguin State of the Middle East Atlas, Nova Iorque, Penguin Random House.

[5] Dan Smith (2016), op. cit., p. 136.

[6] Ver Dan Smith (2016), op. cit., e Charles Glass (2016), op. cit.

[7] Ver Slavoj Zizek (2016), op. cit., pp. 18-19.

[8][8] Ver Slavoj Zizek (2016), op. cit., pp. 19-20.

[9] Ver Slavoj Zizek (2016), op. cit., pp. 20-22.

André Freire
andre.freire@meo.pt

Professor Associado com Agregação em Ciência Política. Foi diretor da Licenciatura em Ciência Política do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (2009-2015). É desde 2015 diretor do Doutoramento em Ciência Política do ISCTE-IUL. Investigador Sénior do CIES-IUL. Autor de numerosas publicações em livros e revistas académicas. Perito e consultor convidado de várias instituições nacionais e internacionais.

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