Social Democracia Partida

Social Democracia Partida

O regime, tal como o conhecemos, precisa de um partido de centro-direita que seja forte. Credível. Sólido. Previsível. Preparado a todo o momento para ser poder. Na curta história da democracia Portuguesa esse partido foi o PPD-PSD. Entre outras funções ele assegura um PS com tino.

Nos anos que levamos de democracia pós PREC os governos constitucionais foram sempre de inspiração social-democrata, ora liderados pelo PSD ora liderados pelo PS. Ganharam eleições legislativas os presidentes do PSD que estavam à esquerda e os secretários gerais do PS que estavam à direita. Essa espécie de alinhamento ideológico macro ao longo do tempo, na baliza social-democrata, explica a nossa adesão e permanência na CEE e depois na UE, ao Euro, ao TPI, à CPLP, a manutenção na Nato, o Tratado Orçamental, o Tratado de Kyoto e de Paris, a participação em missões militares e policiais internacionais de manutenção de paz, etc..

Ao longo dos tempos o grande centrão governou o país em alternância. Mais do que mudar de políticas ou ideologias, os eleitores foram penalizando os incumbentes, quando a carteira minguava e abrindo caminho a novas e renovadas esperanças, com as mesmas opções estratégicas. Mudavam os protagonistas para que tudo ficasse na mesma. No final do dia o Espirito Santo mandava.

A crise, a falência a banca, o aumento da dívida soberana, a corrupção, o PEC IV, a ajuda externa, a Troika, o FMI, a agenda liberalizante e de ruptura constitucional de Passos Coelho, abriram caminho a um governo hibrido e estranho, pseudo neo liberal, de coligação entre PSD/CDS, que governou Portugal num posicionamento singular de que não havia memoria.

A sua acção alegadamente reformadora procurou, em 4 orçamentos chumbados pelo Tribunal Constitucional, o desmantelamento do estado social e a privatização das suas fatias apetecíveis para alguns sectores privados; a diminuição do papel do estado na economia e a privatização de empresas estratégicas que antes estavam na esfera do estado; a diminuição dos custos do trabalho, para a qual muito contribuíram a precariedade e o desemprego alto; o desmantelamento da classe média e da sua capacidade e poder políticos; o desmantelamento da contratação colectiva e a liberalização das relações de trabalho; a subvalorização da concertação social, do papel dos sindicatos e das negociações com os parceiros sociais; a substituição do “estado de providência” público pelo assistencialismo ou pela caridade; A substituição da segurança social pelo banco alimentar contra a fome; o desmantelamento da responsabilidade cuidadora do estado laico e republicano, entregando à Igreja e às misericórdias não só a missão de cuidar, mas também alguns meios públicos para o fazer, transferindo avultadas verbas do estado para a opacidade arbitrária da igreja.

A crispação e o conflito passaram a ser estratégias politicas. Em 4 anos de governo a coligação PSD/CDS tudo fez para abrir as clivagens possíveis: novos contra velhos, privado contra público, laicos contra católicos, desempregados contra empregados, emigrantes contra quem fica. E ficámos todos pior.

A agenda conservadora, católica, neoliberal, preconceituosa e conflituosa do governo PSD/CDS apoiada por um Presidente da Republica menor, com traços de desfasamento da realidade e desde o início do seu mandato sequestrado pelo apoio aos criminosos do BPN, guinou o país para uma deriva não cartografada, e atirou o PSD para um lugar que não é o seu, afastando-o a ele e ao país, da sua matriz social-democrata.

As últimas eleições autárquicas mostraram um PSD rural, velho e por consequência eleitoralmente menor, deixando ao PS todo o centro, toda a classe média, todos os funcionários públicos, as elites, as vanguardas, os comerciantes, os jovens empresários, os empreendedores, os académicos. O país, o PS e o regime, precisam de um PSD forte. Para isso a próxima liderança terá de promover seu recentramento programático e o refrescamento dos seus quadros.

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José Romano
joseromano.arq@gmail.com

José Romano é arquitecto e cidadão a tempo inteiro. Implicado. Pai. Marido. Mestre de Taekwondo, dirigente de várias associações. Militante do PS. Doutorando em Ciencia Politica no ISCTE. Endividado financeiramente à banca e moralmente ao 25 de Abril a quem deve a Democracia e a Liberdade.

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