Sete razões para não votar Fernando Medina nas autárquicas em Lisboa (II): Uma Resposta aos Críticos

Sete razões para não votar Fernando Medina nas autárquicas em Lisboa (II): Uma Resposta aos Críticos

Pelo menos nas redes sociais, este artigo, «Sete razões para não votar Fernando Medina nas autárquicas em Lisboa», gerou uma grande celeuma. Alguns críticos reagiram com elevação e pertinente sentido crítico, outros nem tanto, reagiram mais com profundo sectarismo. Não vou aqui debruçar-me sobre todas as críticas e muito menos responder a todas elas. Esta é, pois, uma resposta às críticas de que me recordo, que reputo mais pertinentes e feitas com maior elevação e menor sectarismo. E tal como nas razões para não votar em Medina, também na resposta aos críticos me fixo no número mágico de sete respostas. Claro que houve também muitos elogios, por exemplo aqui, mas desses não me ocupo aqui.

Um primeiro lote de questões críticas dizia respeito à eventual instrumentalização do artigo e dos argumentos pela direita. É uma crítica pertinente, pois pode acontecer e terá até já acontecido…, mas tal não pode ser razão para calarmos a nossa voz perante o que está mal, do nosso ponto de vista, genuíno e consciente.

Uma segunda linha de críticas tinha a ver com eu parecer desejar que a oposição (de direita) estivesse forte, e quiçá ganhasse. Quem ler o ponto sete verá que não é isso, mas de qualquer modo a valoração (que efetivamente faço) de uma oposição forte e com capacidade de escrutínio, seja ela de direita ou de esquerda, é algo que creio que deve ser feito por todos os democratas, pois uma oposição forte é uma condição sine qua non do bom governo.

Uma terceira linha de ataque veio na linha das anteriores: se oposição de direita está em tão baixa performance (como é dito no artigo), para quê criticar os incumbentes? Seria a direita a alternativa? Este é um argumento puramente falacioso. Por um lado, porque o facto de as alternativas à direita serem fracas, não é motivo para deixarmos de ser críticos com o poder instalado se acharmos sinceramente que não está a governar bem, como é o meu caso (genuína e conscientemente). Por outro lado, não há só a direita a competir com os socialistas, há também pelo menos duas forças relevantes à esquerda do PS: BE e PCP-PEV; e, no ponto sete, o artigo defende que o PS perca a maioria absoluta (como sanção eleitoral para o mau governo e contra a sobranceria da maioria absoluta) e tenha de negociar à esquerda…

Um quarto vetor de críticas era da ordem do caricatural e do puramente demagógico. O meu desejo seria, alegadamente (segundo esses críticos), voltarmos a ter uma Lisboa cheia de carros e com poucas ou nenhumas bicicletas. Geralmente, este tipo de críticas vinha acompanhada de uma imagem do Terreiro do Paço cheio de carros, como quando era um parque de estacionamento gigante… Pura falácia: eu digo no artigo que a ideia de uma Lisboa sem carros, com muitas mais bicicletas e com mais transportes públicos, é uma boa ideia! Do que se trata é de fazer a transição de forma gradual e realista, nomeadamente proporcionando às pessoas os meios para isso. E de forma coerente e consistente. Tudo ao contrário do que é feito.

Um quinto conjunto de críticas teria a ver com a minha alegada antipatia para com as bicicletas (segundo esses críticos). Puro engano: eu sou ciclista regular, embora só aos fins de semana para lazer, pois todos as semanas aos sábados e domingos faço o meu passeio de cerca de 2h30m (em cada dia) pela cidade de Lisboa. E por isso sei que, por um lado, muitas das pistas mais antigas (feitas nos tempos das maiores dificuldades financeiras) estão sem manutenção há anos… e isso é totalmente incoerente e inconsistente com a construção de novas pistas.  Por outro lado, faltam pistas a ligar todos os principais eixos da cidade e faltam ainda bicicletas para alugar… só com essas condições poderemos assistir ao crescimento do uso regular da bicicleta para deslocações correntes. Aqui tenho de fazer uma correção parcial: eu no artigo dizia que não havia pistas na Avenida da Liberdade; e não há. Mas há, efetivamente, zonas da avenida de Liberdade para partilhar (perigosamente) com os carros e velocidade máxima de 30 kms/hora. Só que ninguém sabe muito bem onde estão, porque estão muito mal assinaladas…, e sobretudo quase ninguém anda nelas de bicicletas porque não quer correr risco de vida…

Uma sexta linha de ataque tinha a ver com os exemplos de outras cidades que eu dava. Mas, para além do paroquialismo bacoco desta posição, tais críticos estão redondamente errados. Uma das questões levantadas pelos críticos da construção de pistas para bicicletas (não eu, entenda-se!) em Lisboa argumenta que não devem fazer-se porque quase ninguém anda nelas… Eu não concordo porque, por um lado, creio que a oferta estrutura a procura e, por outro lado ainda, porque tal estruturação leva tempo… mas creio que é preciso levar a sério esta crítica: as pessoas usam pouco as pistas e andam pouco de bicicleta em Lisboa, mesmo! Mas tal acontece por falhanço das políticas: faltam pistas a ligar os principais eixos da cidade; falta manutenção das pistas existentes; faltam «n» postos (abundantes) de alugar de bicicletas…

Há uma sétima linha de críticas que é inteiramente pertinente, embora não totalmente justa. Por um lado, argumentam que eu não fui exaustivo nas críticas, deixando «n» coisas que estão mal de fora… Por outro lado, argumentam que eu não falei nos pontos fortes, que os há também naturalmente… É certo, em ambos os casos, mas experimentem escrever um artigo para um jornal e verão o que são limitações de espaço, por um lado; por outro lado, claro que há coisas positivas, mas o meu ponto de vista é que a silaba tónica deve colocar-se, neste caso (PS/Medina, dez anos depois… prestando contas ao fim do terceiro mandato…), no que correu mal. É a minha humilde, mas sincera e genuína, opinião de cidadão politicamente empenhado (de esquerda, mas sem partido).

 

André Freire
andre.freire@meo.pt

Professor Associado com Agregação em Ciência Política. Foi diretor da Licenciatura em Ciência Política do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (2009-2015). É desde 2015 diretor do Doutoramento em Ciência Política do ISCTE-IUL. Investigador Sénior do CIES-IUL. Autor de numerosas publicações em livros e revistas académicas. Perito e consultor convidado de várias instituições nacionais e internacionais.

4 Comments
  • António Menino
    Posted at 10:35h, 07 Agosto

    Mas quando se diz que se rejeita uma solução, temos que ter uma melhor, ou então a abstenção que é também uma opção.A de deixar aos outros a minha escolha. De forma gradual, defende, devem ser feitas as mudanças. Brutal foi as diversas opções a incentivarem o uso do carro. Até do ponto de vista do território. E isso não é culpa do Medina.Ou também é. Mas apesar disso, hoje vejo por exemplo as Linhas de Sintra e de Azambuja, um luxo face ao que durante muitos anos vivi. E o volume de tráfego é o mesmo.

    • André Freire
      Posted at 11:43h, 21 Agosto

      ver o ponto sete do artigo, sobre alternativas!…

  • maria isabel da silva e silva diniz de carvalho
    Posted at 13:27h, 07 Agosto

    O que é que aconteceu ao comentário que aqui postei?
    Não agradou?
    Só são publicados os comentários concordantes?
    Posso saber o que se passa, ou o leitor não merece essa consideração?

  • João Pimentel Ferreira
    Posted at 13:20h, 16 Agosto

    Concordando com este artigo, assinalo que uma das críticas a Medina tem fundamento. Aqui na Holanda as obras fazem-se sempre rua-a-rua, depois de findada as obras numa rua, então passam para a seguinte. Esta forma muito portuguesa de fazer obra pública, tudo ao mesmo tempo e em ano eleitoral é desprezível, é na prática chamar idiotas aos municípes, que não conseguem ter memória cognitiva com mais de um ano, para saberem fazer uma avaliação do mandato como um todo.

    Em relação ao binómio carros-bicicletas, concordo na totalidade com Medina e com o autor deste artigo. Lisboa continua a ser um salão automóvel a céu aberto, cheia de carros nos passeios, centros históricos e tudo o que tem espaço para albergar lataria, temos o maior parque automóvel do mundo (Colombo) e Lisboa é das cidades com mais carros per capita da UE. Lisboa, contra toda a verborreia opiniativa dos carroólicos do costume, pequeno-burgueses que nunca saíram do burgo e que têm como referência de pólis Luanda ou Maputo, continua a ser salão automóvele a céu aberto.