Se alguma coisa pode correr mal, vai mesmo correr mal

Se alguma coisa pode correr mal, vai mesmo correr mal

Com a escolha de Paulo Macedo o primeiro-ministro em vez de encerrar e dar por concluída a saga da CGD veio-lhe acrescentar argumentos políticos, os quais não estavam presentes quando da escolha de António Domingues. E se neste caso o que contou para o fracasso da decisão foram, principalmente, aspectos jurídico-administrativos, no caso de Paulo Macedo  é dado um sinal político que se vem acrescentar a outros, e  que seria escusado fazer parte do seu rol. Mesmo as razões de Estado, quantas vezes invocadas por Richelieu para unificar a França e centralizar o poder político, devem, por regra, servir as boas causas. E não se vislumbra, por mais que se procure e utilize a lupa, onde está a boa causa nesta escolha do primeiro-ministro, mesmo admitindo que foi para confrontar Pedro Passos Coelho. Ou uma cedência a Marcelo Rebelo de Sousa na movimentação de um peão do seu mais do que óbvio xadrez político, que nunca iludiu quem está atento aos seus desígnios.

Após quatro anos de reversões de muitas das medidas tomadas por decisão do XIX governo, o do brutal aumento de impostos e da austeridade máxima, e contra o qual os portugueses se opuseram, na rua e nas urnas, esta decisão do primeiro-ministro é uma afronta aos sentimentos de indignação por tudo o que aquele governo representou nas suas vidas. E dele fez parte, durante toda a legislatura, Paulo Macedo. Real e simbolicamente o que foi ministro da Saúde representou também o papel de co-responsável  de toda a política daquele governo, não se podendo eximir a ela só porque conseguiu baixar os preços do medicamentos, como agora se argumenta por aí. Porque foi com ele que a política de saúde esteve sempre ausente, o SNS se tornou menos acessível e o sector privado agradeceu e engrandeceu. À pressão e diatribe políticas da direita não se responde indo-se à sua capoeira buscar o seu frango de estimação.

Embora  ao governo diga respeito, tanto o BE como o PCP não podem daí lavar as suas mãos. Este assunto não é um pormenor político, o qual pode ser remetido exclusivamente para a esfera dos assuntos que só lhe dizem respeito para efeitos de umas declarações na comunicação social. A ser deixado passar em claro, com mais ou menos admoestações, ao não se oporem e confrontarem  o governo com uma decisão política tão importante, porventura na expectativa de que o tempo tudo resolva e a memória do povo seja volúvel, aqueles partidos estão a prestar um mau serviço aos resultados eleitorais de 4 de Outubro de 2015, aos acordos de 10 de Novembro e à cerimónia de 26 de Novembro. Faz-se votos, por isso, que o assunto não fique arrumado na pasta dos diversos.

 

Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

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