Questões sobre os distúrbios de jovens em Torremolinos

Questões sobre os distúrbios de jovens em Torremolinos

Questão 1. Sabemos que na adolescência tudo é vivido a 300%. Que a euforia característica destas idades se manifesta muitas vezes em distúrbios e vandalismo. Porque têm os jovens esta necessidade de se afirmarem pela negativa?

EE: A sociedade tem caminhado para um crescente individualismo, mas ao mesmo tempo os jovens são alvo de uma certa condescendência por parte das famílias, onde o número de filhos tem sido reduzido ao mínimo. Por um lado, a sociabilidade familiar das crianças e adolescentes parece reduzir-se à medida que sofre a concorrência da Internet e das redes sociais, onde o mundo virtual permite dar largas a todas as imaginações. Por outro, a escola também parece ter evoluído para uma maior infantilização dos adolescentes. Com os pais sobre-ocupados e a escola limitada na sua autoridade, as aprendizagens e formas de socialização na esfera dos tempos livres parecem enfrentar dificuldades no face-a-face, visíveis, por exemplo, no fenómeno do bulling ou na violência no namoro. A inserção no coletivo, quando ocorre fora do controlo familiar ou da sala de aula, tende a assumir a forma de jogo na qual as componentes do exibicionismo e as competências de liderança começam a emergir. Se a adolescência é de facto uma fase delicada é porque ela é marcada pela indefinição obedecendo a um processo dinâmico de construção da identidade pessoal. Identidade que se estrutura com base em “grupos de referência” que derivam justamente dos aspetos de jogo e liderança que acabei de referir. Acresce que a ação coletiva no seio do grupo envolve os seus membros num clima emocional e de partilha tais, que a “excitação” como que se sobrepõe ou “anula” o pensamento racional. É o chamado efeito de multidão. Daí deriva a propensão para o excesso onde os sentimentos de euforia tendem a ser potenciados, nomeadamente na ausência de vigilância e sobretudo se surge algum fator ou incidente que sirva de combustível para os comportamentos descontrolados.

2. Nota-se alguma tendência para desculpabilizar estes comportamentos por se entenderem “normais nestas idades”. Não será perigosa esta postura?
EE: Creio que a própria sociedade, talvez com a ajuda do sistema de ensino, alterou o conceito de “educação” e parece secundarizar a importância da autoridade na formação das crianças. Para além disso, em casos como a sociedade portuguesa, onde o impacto do sistema educativo foi muito rápido, com a escolaridade obrigatória a evoluir muito em pouco tempo, o que acontece é que se criou um “gap” geracional profundo, onde os modelos de referência entre pais e filhos se tornaram muito díspares, dificultando desse modo os canais de comunicação no contexto informal e familiar. A atitude desculpabilizadora deriva muitas vezes da incompreensão. Para que haja um efetivo acompanhamento da educação dos filhos, sobretudo na fase da adolescência, importaria que não se perdesse o elo de ligação afetivo e comunicacional e que o mesmo pudesse ser preservado na base da confiança mútua entre pais e filhos. Por outro lado, a própria sociedade de consumo em que vivemos, juntamente com o individualismo e o stress diário, contribuem para estreitar o espaço do diálogo e a interligação entre as gerações. Talvez seja necessário promover uma maior aproximação entre avôs e netos, ou melhor, entre gerações intercalares ainda que não ligadas por laços familiares. Alguns municípios têm promovido essa aproximação entre a terceira idade e a infância, com a participação da rede escolar, o que pode ser marcante para a criança e ter efeitos positivos mais tarde.

3. Não é novidade que muitos jovens juntos, longe de casa, com liberdade total, álcool e drogas à disposição tem tudo para dar errado. Mas terão os pais realmente noção do que andam os filhos a fazer?
EE: O que acontece é que, precisamente devido à distância e dificuldades comunicacionais que já referi, os pais criam muitas vezes uma imagem distorcida ou “idílica” dos padrões de comportamento dos seus filhos. Tendem a pensar que, fora da sua alçada, se comportam da mesma maneira do que quando estão em reunião familiar. É um duplo engano: ou porque a mãe e o pai gostam de exaltar as virtudes dos seus filhos perante o meio onde se inserem; ou porque se iludem a si mesmos por saberem que não conseguem ter mão para acompanhar e controlar os seus filhos, sobretudo nestas idades. Depois, vem a questão do consumo de álcool ou até de outras substâncias mais perigosas. É claro que o efeito inebriante e excitante das bebidas alcoólicas ajuda a potenciar todos os excessos.

4. Estamos a falar de muitos milhares de jovens que lidam directamente com as agências promotoras destas viagens, que os aliciam com campanhas baseadas na “diversão”, “loucura” e até bar aberto 24 horas por dia nos hotéis. E quando se fala em controlar, acompanhar, supervisionar estas viagens, todos parecem querer ficar de fora. Não deveriam as escolas e associações de pais envolverem-se mais na organização destas viagens?
EE: No caso concreto dos recentes acontecimentos em Torremolinos, envolvendo ao que se consta cerca de 1000 adolescentes portugueses, aliás na mesma linha de casos anteriores onde já ocorreram tragédias, tratou-se, creio eu, de uma situação onde a displicência, a irresponsabilidade e o oportunismo contribuíram conjuntamente para o que aconteceu. Parece claro que famílias, escola, o hotel, a agência de viagens e os próprios jovens, ninguém está isento de responsabilidades. Ou as famílias não têm a noção de que ambientes destes comportam sempre situações de risco ou não foram informadas como deviam das condições da viagem. Talvez aquele sentimento de “orgulho” por o filho ter acabado de galgar um patamar no seu percurso escolar tenha feito aumentar a displicência. Os hotéis e a agência tentam aproveitar ao máximo a ingenuidade dos jovens e tirar proveito de todo o ambiente de celebração e excitação coletiva daí decorrente. É claro que estas viagens deveriam ser sempre organizadas envolvendo as próprias escolas ou, no mínimo, as associações de pais. Se as várias partes assumissem a sua responsabilidade saberiam fazer destas viagens momentos de formação e de contacto não apenas com diversão e consumo desbragados mas, por exemplo, com a cultura, estimulando modalidades lúdicas mas ao mesmo tempo edificantes, atividades de lazer, reservando pelo menos alguma parte do tempo para tirarem melhor proveito da experiência da viagem.

5. Os pais têm sempre a opção de não autorizar a ida dos filhos. Mas se “os outros todos vão” devem fazê-lo?
EE: É provável que isso tenha ocorrido. No caso em questão, até pelos custos da viagem e estadia, trata-se claramente de jovens de famílias de classe média, portanto, com algum poder de compra. Talvez aceitem a decisão como recompensa do resultado escolar. À partida não se imagina que as coisas possam correr mal e porventura acreditam nas falsas garantias oferecidas pelas agências. Mas perante a visibilidade destes casos, talvez no futuro acompanhem melhor a situação.
(entrevista ao Jornal de Leiria, 20.04.2017)

mm
Elísio Estanque
elisio.estanque@gmail.com

Nasceu no Alentejo (Rio de Moinhos - Aljustrel), tendo frequentado o ensino secundário em Aljustrel, Liceu Nacional de Faro, Externato Marquês de Pombal, Lisboa. Com 16 anos fixou residência nesta cidade, onde trabalhou e continuou os estudos. Foi activista sindical e de diversos movimentos sociais no período revolucionário (1974-1975). Como trabalhador-estudante frequentou e concluiu a licenciatura em Sociologia no ISCTE - Universidade de Lisboa entre 1981 e 1985. Em Novembro de 1985 integrou a equipe de sociologia/ ciências sociais da FEUC, onde se mantém.

No Comments

Sorry, the comment form is closed at this time.