Portugal: oásis europeu

As medidas dos acordos assinados entre PS, Bloco, PCP e PEV já foram quase todas concretizadas? Sim. A geringonça perdeu pertinência? Claro que não.

Novos objectivos devem ser traçados e novos acordos deverão ser assinados. Muitos portugueses não estão satisfeitos com os níveis de precariedade atingidos, não estão satisfeitos com as condições dos estágios profissionais e das bolsas de investigação, não estão ainda satisfeitos com os números do desemprego, com os valores do salário mínimo ou com os níveis de impostos sobre o trabalho. O entendimento entre o governo e os partidos de esquerda contínua por isso a ser essencial.

Neste contexto, a pertinência da geringonça continua a incomodar muita gente e isso é visível todos os dias na comunicação social. Os constantes anúncios do fim da estabilidade e do acordo entre os diversos partidos revelam o vazio de ideias por parte da oposição e uma tremenda incapacidade de apontar soluções alternativas. Mas para todos aqueles que atacam esta solução governativa, pior do que ter uma geringonça a governar, é ter Marcelo Rebelo de Sousa a apoiá-la, mesmo quando esta pisa em ramo verde, como foi no caso da TSU.

Ultrapassado este primeiro ano, a responsabilidade dos partidos é agora maior do que nunca. A ideia de que a esquerda já concretizou o seu programa comum tem de ser desconstruída. Até agora cumpriram-se apenas uma espécie de «mínimos olímpicos». A geringonça tem ainda três anos para conquistar novas metas, sobretudo, em torno das questões do trabalho.

As eleições autárquicas poderiam ser uma oportunidade para reforçar acordos, fazer compromissos e assumir novas políticas comuns de coordenação entre o poder do estado e o poder local. Reconhecendo a utopia deste cenário, desejo que as autárquicas sirvam pelo menos para afirmar a força de uma maioria de esquerda que acima de tudo não quer o regresso das políticas de Passos Coelho e de Assunção Cristas.

A alternativa à deriva liberal, populista, proteccionista e nacionalista foi encontrada em Portugal por este governo e pelos partidos que o apoiam. Até ao momento esta tem sido a resposta mais eficaz à destruição da social-democracia e dos partidos socialistas europeus. O entendimento liderado por António Costa é por isso um oásis frágil num território vazio de ideias, dominado por interesses económicos, onde a palavra democracia está a perder importância. Este oásis tem de ser cuidadosamente preservado por todos os apoiantes da geringonça. Esta é a única forma dos partidos de esquerda continuarem a ter condições para comunicar e trabalhar com e para o seu eleitorado natural. Se o PS se afastar da sua raiz e o Bloco e o PC se preocuparem apenas com a táctica política, também em Portugal veremos a direita e o populismo conquistarem o espaço e os temas essenciais junto dos mais pobres e mais desprotegidos. Preservemos o oásis para que este ano não tenha sido apenas uma miragem.

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Ricardo Santos
ricardofernandessantos@gmail.com

Ricardo Santos (Andorra, 1982). Arquitecto pela Universidade Lusíada de Lisboa, 2005. Doutor pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, com a tese “Arquitectura Portuguesa no tempo longo”, 2014. Membro do Conselho Editorial da colecção “Cidade Participada: Arquitectura e Democracia” dedicada às Operações SAAL e editada pela Tinta-da-China. Desde de 2010 tem participado em diversas publicações e apresentado o seu trabalho como arquitecto e investigador.

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