Os dias da vaca voadora

Naquele tempo a vaca fria era a principal razão que levava as esquerdas portuguesas a considerarem a sua vaca melhor do que a do vizinho, ao contrário do que era habitual neste género de avaliação. A vaca fria era a ruptura epistemológica da ideia que se tinha da espécie, uma fixação darwinista sempre que escasseavam os argumentos de que se alimentou durante a sua longa existência.

Mas ao princípio de uma tarde de outono do ano de 2015,  uma vaca fria tomou a decisão de se isolar, longe dos olhares curiosos, e ali ficar a tecer o seu casulo, até que ao décimo quinto dia, achou que tinha chegada a hora de se mostrar ao mundo, de exibir os dotes da sua metamorfose, de como se tinha transformado num ser alado, colorido e capaz de voar o tempo que fosse necessário e imprescindível para fazer esquecer os seus tempos de vaca fria. Foi assim que começaram os dias da vaca voadora. É à luz do que Bourdieu afirmava em 2004 que devemos compreender este fenómeno: “compreender é, em primeiro lugar, compreender o campo em que nos fizemos e contra o qual nos fizemos”.

Nos meses que leva de vida, a vaca voadora tem mostrado que enquanto vaca fria a sua natureza alada estava reprimida por via da crença das chocas que a cercavam e dos campinos que lhe apontavam o caminho. Enfim liberta da sua fria condição – o que diria Lineu desta nova espécie, assombrosa, fantástica? – vem confirmar aquilo que os seus defensores há muito sabiam e trabalhavam por isso: só não ganha asas quem tem chumbo nos pés e vento na cabeça. E entre o que lhe falta fazer, o que tem feito menos bem e o que tem bem feito, destaca-se uma qualidade. É que não se trata de um melro, de um cuco ou de um papagaio, é de uma vaca voadora, um acontecimento singular só imaginável na mente prodigiosa de Júlio Verne.

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Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

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