O que é não anda longe do que era

O que é não anda longe do que era

O governo voltou a insistir na individualidade que na primeira sessão legislativa não conseguiu ser eleita para a presidência do Conselho Económico e Social ao não ter atingido, para o efeito, os dois terços dos votos necessários: Correia de Campos. À segunda, no entanto, foi de vez, embora por uma unha negra. Tivesse tido menos um voto e teria sido uma humilhação em cima de outra e  o partido socialista teria de ir ao ficheiro escolher um militante que não oferecesse as resistências que este oferece. E, por sinal, até tinha por onde escolher. Obteve 145 votos favoráveis, mas ao mesmo tempo, contando os votos brancos e nulos, averbou 73 votos que não lhe foram favoráveis http://24.sapo.pt/economia/artigos/correia-de-campos-eleito-presidente-do-ces.

Enquanto ministro da Saúde durante o governo de José Sócrates, Correia de Campos protagonizou o maior encerramento de serviços de saúde de proximidade, levou milhares de portugueses à rua, de norte a sul do país, e manteve um conflito constante com os sindicatos dos profissionais da saúde. Foi a partir dessa altura que o sector privado da saúde viu a sua oportunidade para se expandir em todo o território e atingir um grau de cobertura insuspeito há dez anos atrás. Com estes antecedentes políticos, esta eleição só se pode compreender no quadro das exigências  que os patrões têm vindo a fazer ao governo e da simpatia que ele goza no Palácio de Belém.

Incompreensível mesmo foi não se terem verificado votos contra, nem um. O que nos leva a concluir que para o BE e PCP este foi um assunto  seguramente alvo de negociações e tacticamente assumido como marginal, para que  não se verificassem manifestações de divergência incómodas entre as partes, dada a importância e a visibilidade política do cargo em causa.  Porém, por diversas vezes, tanto o BE como o PCP têm manifestado a sua autonomia relativamente a todas matérias que não constam dos acordos que subscreveram. Sendo esta solução política o que é, um encontro de vontades e objectivos  para demonstrar e mostrar que há sempre alternativas, o que é também devia parecer que é. E neste caso, o que é não anda muito longe do que era. Porque esta escolha é uma versão, nem sequer revista, do passado.

Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

2 Comments
  • Carlos Alberto Correia
    Posted at 17:52h, 19 Outubro

    É-me de triste memória o consulado de Correia de Campos. Não fora portador de credenciais socialistas e pensaria estar frente a um homem de direita. Não me admira que tenha acabado por preencher o lugar no CES. Este organismo, a contrário do pensamento político que enforma a plataforma de apoio ao Governo, sempre teve mais consistência para o lado direito. Espantado fiquei com duas coisas: a primeira que a direita não o tivesse apoiado imediatamente e tenha chumbado a sua candidatura. A segunda é que ele tenha aceitado repetir a dose. Enfim, cada um é como é e dá ao respeito por si próprio o valor que quer. Também não sei muito bem para que serve o CES? Não duvido que tanta gente inteligente passe por lá o tempo sem produzir algo que se veja. Tal não faria qualquer sentido, nem eu estou a ver, pessoas tão ocupadas, estarem ali a perder tempo a tentar conciliar o inconciliável (ou quase). Por isso devo ser eu que ando desatento ou não percebo o real valor dessa instituição. Mais me parece um mar de boníssimas intenções para parcos resultados.

    • Cipriano Justo
      Posted at 12:41h, 20 Outubro

      As credenciais são o que são, e não raro são falsificadas. Quando no CES era necessário que na liderança estivesse uma individualidade que influenciasse a concertação social no sentido dos interesses dos trabalhadores, porque esse exercício não é neutro, foi escolhida uma personalidade à medida das ambições do Presidente da República: fazer daquele organismo uma espécie de Câmara Corporativa.