O Paradoxo Lusitano

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O Paradoxo Lusitano

Em Portugal, como é sabido, nunca acontece nada, é o paìs dos brandos costumes, tudo fica na mesma memo quando há Revoluções. De facto, este é o paradoxo Lusitano: que uma das maiores mudaças dentro do panorama europeo aconteceu, talvez por sorte, quase no completo silencio dos observadores do continente. Enfim este é o estereotipo, claro!

O governo formado por António Costa vinte anos atras até podia aparecer como algo de muito natural. No fundo França, Espanha, Itália tiveram executivos baseados em alianças entre a socialdemocracia e a esquerda radical. Todavia, o que mostram os casos recentes Italiano Espanhol e Alemão, após a crise de 2008, os sociais democratas, ou, para melhor dizer, o centro esquerda, preferiram entrar em coligações com os partidos conservadores do que com a esquerda radical. Ou seja, a distância entre esquerda (radical) e o centro esquerda parace se ter tornado mais ampla, quiçá intransponível, nesses países.

Neste contexto o caso italiano tem peculiaridades: a esquerda radical já praticamente não existe, não tendo conseguido, como fez o Bloco de Esquerda, ultrapassar as suas divisões internas ou, como fez o Partido Comunista Português, renovar-se.  O centro-direita berlusconiano colapsou após a crise de 2011 e hoje a unica força de oposição é representada pelo Movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo.

A ideia da politica como mediação, e dos partidos como agentes fundamentais da democracia está a encontrar uma grave crise de legitimação. O Presidente do Conselho dos Ministros, Matteo Renzi, tem o apoio do seu partido e, sublinhe-se, o seu Partito Democratico não o seu partido socialista ou social-democrata, e de uma parte do centro direta.  Recentemente foi aprovada uma nova lei eleitoral que, embora de cariz proporcional, prevê uma segunda volta entre os dois partidos mais votados, para conseguir ter o premio de maioria que consiste em 340 deputados sobre 630, na Câmara Baixa, independentemente dos resultados da primeira volta.

Agora, sem entrar no campo da reforma constitucional, que será referendada no proximo dia 4 de dezembro, o que é importante sublinhar é como Itália e Portugal escolheram dois modelos democraticos opostos. Na Itália, os cidadãos irão votar, de facto, para o primeiro ministro que, no modelo do Partito Democratico é escolhido em eleições primarias abertas. É um modelo que enfraquece os corpos intermédios dos partidos e das suas organizações, e que favorece de uma forma muito forte a pessoalização da politica. Portugal fez um caminho em alguns aspectos opostos, sobretudo após as eleições legislativas de 2015, ou seja, formou-se um governo baseado no apoio parlamentar de três partidos, mesmo que, nenhum desses três partidos, a solo, tivesse “ganho” as eleições. Banalmente poderia-se dizer que é o parlamentarismo: os cidadãos elegem deputados de diferentes partidos e os deputados exercem a sua actividade sem vinculo de mandato e, portanto, a coligação governamental não está necessariamente vinculada ás promessas eleitorais.

Todavia é preciso ter partidos e é preciso que estes partidos sejam legitimados, não por programas eleitorais imperativos, mas pela necessidade da mediação e medição das suas próprias forças. Isso gerou polemicas, como é sabido, mas está a funcionar e as esquerdas portuguesas estão, surprendentemente, a crescer nas sondagens. Isso tudo pode parecer banal, mas por vezes a banalidade torna-se invulgar.

Goffredo Adinolfi
goffredoadinolfi@hotmail.com

Vivo em Lisboa há vário anos, mas sou de nacionalidade italiana e belga. Fui Erasmus em Portugal entre 1998 e 1999. Em 2005 doutorei-me em Historia Contemporânea pela Universidade de Milão e desde então sou Investigador em Ciência Politica, no CIES-IUL do ISCTE-IUL, com financiamento da FCT. Sou ainda comentador convidado e/ou consultor (pro bono, ocasionalmente) de várias rádios, televisões e jornais, nomeadamente a Presa Diretta (Rai), o programa Prós e Contras (Rtp), o Jornal da Noite (Rtp), a Economico Tv, a Radiopopolare, a Radio 24. Desde 2011 colaboro regularmente com o diário italiano Il Manifesto.

2 Comments
  • mm
    J.-M. Nobre-Correia
    Posted at 18:14h, 01 Novembro

    Estes textos de análise comparativa entre o que se passa em Portugal e noutros países (sobretudo em países europeus e mais particularmente em países da área latina europeia) constituem sempre um contributo importante para melhor compreender as especificidades portuguesas…

  • Carlos Fragateiro
    Posted at 12:49h, 02 Novembro

    Sublinho e reforço: Todavia é preciso ter partidos e é preciso que estes partidos sejam legitimados, não por programas eleitorais imperativos, mas pela necessidade da mediação e medição das suas próprias forças. Isso gerou polémicas, como é sabido, mas está a funcionar e as esquerdas portuguesas estão, surpreendentemente, a crescer nas sondagens. Isso tudo pode parecer banal, mas por vezes a banalidade torna-se invulgar.