O Maria Matos é um teatro municipal

O Maria Matos é um teatro municipal

Em 1970, desembarcado em Lisboa, vindo de Moçambique, fui levado pela mão de uma familiar ao teatro. Estaríamos em Maio. Logo calhou que o espectáculo fosse A Relíquia, de Eça de Queiroz, encenado por Artur Ramos, com adaptação de Luís de Sttau Monteiro, figurinos de João Abel Manta, e as interpretações, entre outras, de Lurdes Norberto, Elvira Velez, Mário Pereira, Ruy Furtado, Costa Ferreira, Adelaide João e Madalena Braga. E foi logo no Maria Martos, tendo o espectáculo estado em cena durante várias semanas.

Inaugurado em 1969 com a peça O Tombo no Inferno, de Aquilino Ribeiro, durante estes mais de quarenta e oito anos a programação do Maria Matos teve altos e baixos, mas durante a maior parte da sua existência representou um polo cultural acarinhado e frequentado pelos lisboetas. Nele se apresentaram e representaram as mais variadas formas de espectáculo, uns esteticamente mais tradicionais, outros ensaiando caminhos alternativos, mas sempre com uma oferta que não nos deixava indiferente.

Objecto de remodelação entre 2004-2006, o Maria Matos reúne actualmente  condições técnicas e físicas particularmente sofisticadas, oferecendo, por isso, todas as condições para nele se desenvolver uma programação à altura das exigências culturais da cidade de Lisboa. A natureza pública desta infraestrutura cultural está, no entanto, a ser posta em causa por quem era menos de esperar: o executivo da Câmara Municipal de Lisboa, principalmente pela sua vereadora da cultura, Catarina Vaz Pinto, que em recentes declarações fez menção de concessionar a uma entidade privada aquele teatro. No actual contexto político podia-se pensar que a febre das privatizações estava a recuar. Mas pelos vistos, e mesmo com uma vereação maioritariamente do partido socialista, parece assim não ser.

É, por isso, de louvar e apoiar o movimento  que se tem reunido para debater esta situação e, ao mesmo tempo,  lançou uma Petição pública http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT87826, na qual é defendida a necessidade  de maior debate público e maior investimento público na cultura. Não podemos perder mais nenhum equipamento cultural municipal. A alienação da propriedade de um bem  público é sempre um recuo político, é sempre uma cedência à via do lucro, uma vez  que na esfera pública existe tanta ou melhor capacidade, competência e recursos para, como neste caso, gerir e programar um espaço cultural com dignidade.

Por todas  estas razões, os argumentos apresentados pelo movimento Por uma gestão pública do Maria Matos devem ser ouvidos e equacionados, e a Assembleia Municipal de Lisboa tem por obrigação levar o assunto à discussão para uma tomada de posição dos seus deputados. Aproximando-se o cinquentenário do teatro, impõe-se que o celebremos com uma programação de excelência, no âmbito da política cultural da CML.

Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

No Comments

Post A Comment