O Lopes que se segue

O Lopes que se segue

Afastadas as segunda e terceiras divisões, o duelo pela liderança da direita vai, então, travar-se entre Pedro Lopes e Rui Rio, cujas diferenças não vão além de um salto de pardal, mesmo que todas as boas vontades se reunissem numa missa campal. Enquanto Lopes é a síntese de um almoço com MRS e a provedoria da Santa Casa, Rio é o detergente a quem atribuíram a missão de procurar dissolver as nódoas que durante quatro anos foram caindo sobre o tecido social português, sob a forma de humilhações, austeridade e outros maus tratos.

No universo da rua de S. Caetano os astros começam a alinhar-se para entronizar Pedro Lopes como o mais amado do Palácio de Belém, aquele que, descontadas as traquinices enquanto governante, alguma coisa irá fazer para em 2019 tentar fazer esquecer as misérias que foram semeadas pelo seu antecessor. Tem no seu curriculum, no entanto, as marcas de um partido em cujo passado recente ressalta uma trilogia pouco abonatória de primeiros-ministros  – Durão Barroso, ele próprioe e Passos Coelho. Os três, cada um com a sua especialidade, contribuíram para que no espelho do centro-direita  só se veja direita, mais direita e outra vez direita. Com eles, aquele apêndice de preocupações sociais foi ficando pelo caminho, restando um partido ajoelhado aos pés do capitalismo mais devorador.

É desejável que assim seja, que Pedro Lopes seja eleito líder da direita. Ficam desfeitas todas as ilusões sobre a capacidade de regeneração política de um partido que, com Sá Carneiro, nasceu da tentativa de transição pacífica para a democracia, com todas as ambiguidades e equívocos daí decorrentes, como se está agora a verificar aqui ao lado, em Espanha. Tenhamos isto em consideração: o PPD de Sá Carneiro é o PPD/PSD de Cavaco Silva, Durão Barroso, Passos Coelho, e será o de Pedro Lopes, passados que foram quarenta e três anos da sua fundação. Todos tiveram a suprema sorte de, em 25 de Abril de 1974, lhes ter caído um balde de verniz em cima.

A eleição de Rui Rio seria a escolha para atrair o eleitorado flutuante que se move entre o PS e o PSD e ainda é sensível à vozearia que os porta-vozes da direita fazem ouvir diariamente na comunicação social. Seria procurar esbater fronteiras, estabelecer um sistema de vasos comunicantes entre as duas bases eleitorais de apoio. Com Pedro Lopes, todas as escolhas se tornam mais fáceis, continuando a direita o seu caminho em direcção ao horizonte mais afastado.

 

 

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Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

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