O inferno de Dante pelo Bando

O inferno de Dante pelo Bando

Nem a Divina comédia, escrita no século XIV pelo italiano Dante Alighieri, é uma peça de teatro, sendo antes descrita como um poema de pendor épico e teológico, nem a primeira parte da trilogia, «O Inferno», levada à cena pelo Bando no TNDM II (11 de Maio a 4 de Junho) é propriamente uma peça de teatro no sentido clássico, sendo porventura melhor classificada como uma performance teatral, na linha aliás de anteriores trabalhos de O Bando.

O livro é uma obra seminal da cultural ocidental, nomeadamente italiana e europeia, de difícil transposição para o teatro, seja por não ser uma peça de teatro, seja pelo «arcaizante e exuberante» de algumas das melhores traduções em português, como a de Vasco Graça Moura, segundo João Brites entrevistado pelo TNDM II e cuja entrevista está vertida na folha de sala. O desafio dramatúrgico era por isso imenso e várias traduções foram contempladas. No final, podemos dizer que esta primeira parte da trilogia pelo Bando, «O Inferno», a que se sucederão posteriormente «O Purgatório» (2019) e «O Paraíso» (2021), é uma excelente performance teatral, seja pela ótima encenação e trabalho de atores, seja pela cenografia, seja pela combinação texto / palavra, ação teatral, cenário e música. Recomenda-se vivamente, pois, até porque os ecos de «O Inferno» na atualidade são múltiplos, nomeadamente nas «guerras religiosas» entre cristãos, judeus e muçulmanos que ainda hoje podemos observar, mutais mutandis… Estão de parabéns, portanto, o Bando, os estagiários da ESTC (Escola Superior de Teatro e Cinema) e também o diretor do TNDM II, Tiago Rodrigues, que tem levado imensos clássicos, gregos e outros, aos palcos do Nacional.

E como se liga tudo isto ao tema do governo de esquerdas? Bom, pelo menos de duas formas. Primeira, porque apesar dos parcos recursos que o Estado investe na produção cultural, a verdade é que o trabalho dos artistas portugueses continua a produzir excelentes trabalhos para nossa fruição e enriquecimento cultural. Segundo, porque é hora de esta solução política começar a pensar e a planear a canalização de mais recursos para a cultura, nomeadamente para o teatro. Fica o desafio…

Resta-me recomendar ainda que quem não puder ver o espetáculo em Lx, de 11 de maio a 4 de junho, no TNDM II, o veja pelo menos no Porto (15 a 18 de junho, Teatro Carlos Alberto) ou em Coimbra (24 de junho, Convento de São Francisco). Ver aqui.

 

André Freire
andre.freire@meo.pt

Professor Associado com Agregação em Ciência Política. Foi diretor da Licenciatura em Ciência Política do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (2009-2015). É desde 2015 diretor do Doutoramento em Ciência Política do ISCTE-IUL. Investigador Sénior do CIES-IUL. Autor de numerosas publicações em livros e revistas académicas. Perito e consultor convidado de várias instituições nacionais e internacionais.

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