O inesperado aliado de Francisco Assis

O inesperado aliado de Francisco Assis

Considerando as declarações de Santos Silva na sua entrevista ao jornal Público https://www.publico.pt/2018/07/12/politica/entrevista/acordo-para-nova-geringonca-deve-incluir-politica-externa-e-europeia-1837678,  um dos principais dirigentes do PS, tudo leva a crer que a solução para criação de um governo de esquerda podia estar seriamente comprometida. Principalmente porque coloca a questão europeia como condição para que essa solução se concretize, conhecidas que são as posições do BE e do PCP.

Embora as posições da UE relativamente às exigências sobre  política financeira sejam particularmente penalizantes para Portugal, retirando-lhe espaço de manobra para fazer os investimentos públicos de que carece, sobretudo nos serviços públicos, não deixa de ser verdade que mesmo sob a alçada dessas exigências o que tem estado em causa neste mandato do governo é a hierarquia das prioridades. A política de rendimentos vai continuar a ser uma prioridade, a educação será sempre outra prioridade, a saúde carece de uma grande volta em matéria de política de saúde e de organização, os idosos exigem que não os deixem sós, doentes e pobres.

Se considerarmos que estes serão alguns dos principais aspectos a ter em consideração no ciclo político que terá início em Outubro de 2019, então o dirigente do PS mediu mal as suas exigências ao colocar no caminho dos entendimentos à esquerda uma barreira dificilmente contornável. Porque a tese, a ser dicotómica, no espaço de tempo que ainda está por cumprir do mandato do governo, vem criar ainda mais ruído do que aquele que já está instalado a propósito de várias políticas sectoriais. A não ser que, tomando como desculpa a política europeia, o entrevistado estivesse a fazer a iniciação à inevitabilidade de uma ruptura com a esquerda, pondo-se á janela, qual carochinha que há uns meses tivesse iniciado troca de correspondência com o João Ratão. Neste cenário, a estratégia de tão óbvia é facilmente desmascarável, porque seria sempre o PS a incluir nos pressupostos dos entendimentos um produto que os outros não desejam adquirir.

Ao contrário, se o PS se concentrar no que internamente é prioritário concretizar, redistribuindo os recursos e dispondo-se a um exercício de melhoria das condições de vida das pessoas, mais do que a reversões e reposições, podem ficar criadas as condições para que, por outros meios, os acordos de 10 de Novembro possam ser revistos e actualizados.  Ao contrário de exercícios de estilo e de retórica eleitoral o que importa é que o PS dê mostras inequívocas de que deseja enfrentar o que há para fazer com os parceiros que estão em melhores condições para o fazer.

 

 

Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

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