O homem que falava de mais

O homem que falava de mais

Na entrevista que recentemente deu ao jornal Diário de Notícias, http://www.dn.pt/portugal/entrevista, MRS declara a certa altura que “Os partidos da área do governo têm de decidir se querem durar até ao fim da legislatura”. Não ficando por aqui, vai teorizando sobre a utilização da “bomba atómica”, leia-se, a dissolução da Assembleia da República. Não estando à vista qualquer manifestação ou indício que autorize a hipótese de ruptura nos partidos da maioria parlamentar, estas alusões são por si só significativas do estado de espírito do entrevistado na altura da entrevista. As quais  se enquadram num contexto muito preciso, imediatamente a seguir ao seu protagonismo durante as ocorrências em Pedrógão Grande, em que só faltou a MRS andar de mangueira na mão para conseguir tirar o efeito máximo dos acontecimentos, o abastecimento da sua quota de popularidade. À falta da sua tradicional rectaguarda partidária, suficientemente capaz de o respaldar politicamente, é neste tipo de intervenções públicas que vai  buscar a legitimidade para fazer as afirmações que frequentemente faz.

Não se tratando sequer de uma coligação, a solução política na qual o governo se apoia há-de ter tantos momentos  de tensão quantos os que as diferenças programáticas se manifestarem, sempre que estiverem em causa diferentes soluções para os mesmos problemas. Esse é o custo, mas simultaneamente o desafio político, de quem estabelece compromissos com quem não  está ideologicamente próximo. É, principalmente, o exercício da autonomia das partes, sobretudo daquelas que não veem satisfeitos os seus propósitos. O que está em causa nos compromissos firmados, continuando a ser o que está escrito nos acordos de 10 de Novembro, é também o seu espírito, e é sobre ele que a segunda metade do mandato do governo vai sobretudo incidir.  Mais propriamente: verificando-se que os indicadores macro económicos estão a ter um comportamento que excedem as expectativas, como e onde vão ser aplicados esses resultados.

Este facto não ilude as diferenças, antes ilustra o que distingue PS, BE, PCP e PEV. Porém, no exercício das suas funções, o Presidente da República tem o dever de reserva das suas opiniões. Tanto mais que elas questionam e lançam dúvidas sobre o entendimento e o relacionamento daqueles partidos políticos no que respeita às condições em que apoiam a acção governativa. Há limites à especulação, mesmo quando se trata do teorema de Pitágoras. O mesmo se aplica ao que se vai passar no seio da maioria parlamentar. Até ao momento, o histórico tem mostrado que existem mecanismos para superar as diferenças. Cabe então a MRS não se imiscuir nesses mecanismos e concentrar-se nos poderes que a Constituição lhe confere. Os seus estados de alma podem ser muito excitantes mas são só os seus estados de alma.

 

 

 

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Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

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