O governo de esquerdas e o espantalho do populismo

Após a crise económica global de 2007-08 e os problemas eleitorais enfrentados pelos principais partidos políticos, jornalistas e um número crescente de cientistas políticos começaram a ver a ascensão do “populismo” em todos os lugares. Isso significa que, apesar das profundas disparidades ideológicas entre partidos políticos e políticos anti-statu quo (ou anti-establishment) que recentemente tiveram sucesso eleitoral, as suas semelhanças são consideradas mais importantes do que as suas diferenças. Como resultado, partidos como a Frente Nacional (FN) eo Partido pela Liberdade (PVV) são frequentemente colocados na mesma categoria populista como o SYRIZA, o Podemos e o BE. Donald Trump e Bernie Sanders nas primárias presidenciais dos Estados Unidos foram repetidamente descritos como diferentes lados da mesma moeda populista, embora, na maioria dos aspectos, as suas plataformas políticas sejam opostos polares uma da outra.

De certa forma, a explosão do interesse e dos ensaios sobre o populismo pode ser vista como uma revitalização da “teoria dos extremos” que os eruditos liberais disseminaram na década de 1950, nos Estados Unidos, numa tentativa de deslegitimar a política esquerdista, igualando-a com o recentemente desacreditado fascismo. Foi também então que o “populismo” começou a adquirir o significado pejorativo que mantém até hoje, apesar de algumas tentativas mais recentes da esquerda para reapropriar o conceito numa forma positiva (mais notavelmente por Ernesto Laclau, Chantal Mouffe e seus correligionários). Além da sua imprecisão, utilidade analítica questionável e conotações normativas negativas, o uso generalizado do conceito de populismo nos círculos acadêmicos e jornalísticos frequentemente serve como uma tentativa mal disfarçada de suplantar a principal dimensão do conflito político entre esquerda e direita.

Na Europa, qualquer nova força política que desafie a ortodoxia de austeridade agora é vista como populista ou, quando os partidos tradicionais o fazem são também descritos como estando a tirar partido da onda do populismo por razões eleitorais. A divisão entre forças políticas liberais (e pró-europeias) e forças populistas tem substituido tudo. Quando o SYRIZA ganhou as eleições na Grécia, em janeiro de 2015, observadores de esquerda em todo o mundo saudaram o resultado como uma vitória na luta contra as políticas de austeridade na Europa. Ao contrário, observadores liberais e centristas viram o resultado eleitoral como uma vitória das forças do “populismo.” Os mesmos observadores também tendem a considerar o consenso da política de austeridade em toda a Europa como neutro e tecnocrático, não como motivado politicamente e ideologicamente. No caso do SYRIZA, o amadorismo e o oportunismo da liderança do partido deram razão àqueles que tinham declarado o novo governo como somente populista. Depois de quase dois anos, o novo governo da Grécia não deixou nenhum legado positivo associado a uma agenda esquerdista. A sua vergonhosa coligação com o partido nacionalista Gregos Independentes (ANEL), mas também o oportunismo do partido e um conjunto de prioridades peculiares impediram a introdução de reformas de esquerda, ainda que pequenas mas significativas, em áreas fora do âmbito da Troika, como a educação, o meio ambiente, a democratização das instituições políticas ou a separação entre a igreja e o estado.

Nesta altura o governo de esquerdas em Portugal fica a última e melhor esperança da esquerda europeia. O seu significado não é apenas a ruptura das barreiras dentro da esquerda portuguesa, mas também o facto de ter demonstrado – mantendo um equilíbrio delicado – que um sistema partidário nacional com alternativas políticas significativas (de esquerda e de direita) não é impossível. Seus oponentes dentro e fora de Portugal continuam a interpretar a coligação através do prisma da divisão moralista (e não política) entre responsabilidade e populismo. O que eles não vêem é que este desenvolvimento em Portugal não só pode restaurar a fé dos cidadãos no processo democrático, mas pode efetivamente impedir a ascensão do eurocepticismo. Agora já é claro que há uma relação direta entre a despolitização de domínios políticos e o surgimento de partidos eurocéticos. Como o cientista político Peter Mair escreveu (Ruling the Void, 2013: 138-139), num sistema que efetivamente impede a organização de oposição substantiva, há dois resultados possíveis: a eliminação de toda a oposição significativa e um processo institucional da concorrência esvaziada de qualquer substância, ou a mobilização de uma “oposição de princípio”, o que significa neste contexto o euroceticismo e a oposição contra a Europa.

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Emmanouil Tsatsanis
etsats@gmail.com

Cidadão grego, investigador do CIES-IUL (centro de investigação em ciências sociais e políticas do ISCTE-IUL) e Professor no Mestrado em Ciência Politica do ISCTE-IUL. Os seus interesses de pesquisa abrangem as questões do comportamento eleitoral, a dimensionalidade da competição política e o espaço ideológico, a legitimação democrática, as identidades e ideologias políticas, normalmente com um foco geográfico nos países do Sul da Europa. O seu trabalho tem sido publicado em livros e revistas académicas internacionais e nacionais.

1Comment
  • mm
    J.-M. Nobre-Correia
    Posted at 19:26h, 07 Novembro

    Continuo a considerar estas análises vindas de fora, com um ângulo de abordagem diferente, como essenciais para melhor compreender a realidade portuguesa e a situação atual…