O Fillon mignon da direita europeia

O Fillon mignon da direita europeia

À primeira vista a eleição de Fillon para representar a direita francesa na disputa presidencial do próximo ano parece não ter que ver com a solução governativa portuguesa, mas tem, se considerarmos que em Setembro desse ano Ângela Merkel e Martin Schulz poderão vir a protagonizar novamente um governo de coligação e na Grã-Bretanha o efeito Brexit deu alento a uma extrema direita que se mostra mais arrogante do que nunca. Com o partido socialista francês desfeito, em consequência dos continuados recuos de Hollande, seria uma surpresa que não fossem François Fillon e Marine Le Pen a decidirem qual deles irá ocupar o lugar no Eliseu. Por isso, e para o que interessa para Portugal e a União Europeia, o mais provável, e os cenários políticos constroem-se antes de os acontecimentos se verificarem, é termos um governo de direita em França, porventura distinto da direita representada por Alain Juppé,  um governo centrista na Alemanha, e em Portugal o governo mais à esquerda que se conseguiu formar, e que, à esquerda, representa a principal referência política europeia. Embora por razões diferentes, na Grécia, em Itália e na Holanda o espectro da direita não deixa de ser menos ameaçador.

Neste cenário,  a provável  eleição de Fillon altera consideravelmente a  correlação de forças na Europa deixando Portugal de poder contar com um aliado, mesmo circunstancial, nas várias mesas de Bruxelas onde se decidem os muitos assuntos com impacto na vida de todos os dias dos portugueses.  A arrogância do eixo franco-alemão dos tempos de Sarkozy e Merkel dando lugar ao eixo Fillon-Merkel/Schulz não deixaria de ter outras características, não tanto por Fillon ser particularmente diferente de Sarkozy mas porque a coligação CDU/SPD pode mitigar as investidas daquele, considerando que a União Europeia é um projecto no qual o futuro governo alemão continuaria a investir. A ser assim, e a verificar-se este cenário, é de todo interesse para a Europa e para as esquerdas europeias, tal como hoje o significado dos vários passos atrás  se apresenta politicamente,  que a solução governativa portuguesa se mantenha durante toda a legislatura. Não só pelas consequências positivas que tem tido internamente mas igualmente pelas externalidades que pode gerar numa Europa transformada numa espécie de grande república de Weimar.

Essas externalidades consistem no facto de, quarenta anos depois, os portugueses terem tido  novamente  o engenho de construirem uma solução política  ao arrepio da tendência dominante em  toda a Europa, única, e de no seu primeiro ano de vida os  sinais vitais do nascituro mostrarem que é viável, com boa frequência cardíaca,  a oxigenar bem e bom tónus muscular. Por ora é o que interessa, e representa a contribuição política do povo português para que as esquerdas europeias  se erguerem das suas cinzas.

Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

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