O choque da política pós-moderna

O choque da política pós-moderna

Olha-se para o mapa da Europa e o panorama não é particularmente confortável. Hoje são mais os pontos críticos, aqueles onde a todo o momento pode irromper uma convulsão social, do que as zonas em que previsivelmente o que há para resolver vai ser resolvido por métodos democráticos, embora as duas situações sigam, aparentemente, as mesmas regras. De norte a sul, de leste a oeste, a influência da extrema-direita, mesmo quando não está representada nos governos, exerce já tal influência que tem obrigado o conjunto dos partidos de esquerda a recuos assinaláveis. E o mais além que têm conseguido ir é ensaiar uma reacção à conjuntura, quase sempre inconsequente, perdendo-se nos labirintos das proclamações.

Estando praticamente tudo dito sobre a multicausalidade da situação, de que a queda do Lehman & Brothers foi só a carga detonadora, daí para a frente os prejuízos sociais por ela provocados foram tais que à falta de uma resposta concertada da esquerda, naquilo que deveria ter sido o mínimo das suas obrigações, o combate ideológico, fracassou por completo, de cedência em cedência, de capitulação em capitulação. Se a Europa não gerou, ainda, o seu Trump ou o seu Bolsonaro, dentro das suas fronteiras viajam já os Salvinis e os Órbans, os Farage e os Le Pen. Hoje a Europa é dominada por formações políticas que têm inscrito nos seus programas um único propósito, romper com a União Europeia e regressar à política do arame farpado. Não querem ouvir falar de orçamento europeu, de subsidiariedade ou de solidariedade. A liberdade deixou de ser um valor indiscutível para passar a ser  um bem instrumental.

É por estas razões que começa a ser preocupante a tendência que, há já algum tempo, a vocação para a  auto-suficiência se está a afirmar no PS, na crença de que o esfacelamento da direita lhe dá razões de sobra para dar por finda a utilidade dos partidos à sua esquerda. Esta derrota da direita nunca poderá ter como resposta a tentação para tornar BE e PCP filhos de um deus menor. Se por essa Europa fora os povos vivem o choque da política pós-moderna – aquela que está transformada numa ficção com direitos de autor -,  representando, por isso, um erro de paralaxe relativamente à realidade, é lícito ter-se a expectativa de que aqui, em Portugal, se tenha levado tão longe quanto a razão consegue alcançar, as lições do que se está a passar por aí.

E a medida a tomar nem tem de passar por um casamento entre aqueles que durante estes anos conseguiram coabitar no mesmo perímetro parlamentar. Chega contar  o número de deputados e fazer dele uma diferença  inferior à soma das partes.

Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

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