O ano do capiroto: As eleições estadunidenses observadas do Brasil.

Este ano não tem sido fácil para nós, analistas políticos, sociólogos, politólogos, jornalistas, enfim para aqueles que têm a ingrata tarefa de tentar esboçar diagnósticos e prognósticos, com base em modelos históricos, institucionais e racionais. Toda nossa racionalidade, fé nas instituições, na previsibilidade das escolhas, tudo que aprendemos e ensinamos têm se mostrado inócuo diante das frustrações, do desconforto, do ódio, e dos sentimentos erráticos dos cidadãos comuns.
Os diagnósticos, todavia, até que não têm nos causado muitos problemas. Há um certo consenso sobre as causas: a financeirização do sistema capitalista drena recursos da economia real, reforçando a tendência de concentração de renda que o caracteriza. A década passada foi um breve interregno nesse processo, pois a entrada dos chineses no mercado consumidor serviu como uma nova fronteira, ainda não contaminada pelo horizonte de estagnação que se espraia sobre as economias médias e grandes. Ao se encerrar este ciclo, no qual a inclusão de pessoas no mercado consumidor na Ásia, mas, também, na América Latina, serviu de catalizador para a economia global, o que se têm visto é um cenário de crise econômica, cujas consequências políticas e sociais têm tomado de assalto aqueles que deveriam antecipá-las e compreendê-las. De modo geral se observa um recrudescimento generalizado do conservadorismo, um movimento restaurador* que se traduz em uma ojeriza a tudo que se aproxime das ideias de igualdade, liberdade e fraternidade que outrora acreditávamos constituir o horizonte normativo dos povos ocidentais. Estávamos errados.
Quanto aos prognósticos, aqui no Brasil temos errado todos. Achávamos que a população manteria seu apoio a um governo que melhorou suas condições de vida de uma forma inédita na história recente: erramos. Achávamos que o empresariado nacional se manteria fiel a um governo que lhe concedeu inúmeros benefícios (lícitos e ilícitos): erramos. Achávamos que nossas instituições seriam capazes de canalizar os conflitos, mantendo a coesão entre Legislativo e Executivo que até então sobressaia como elemento constitutivo da nossa tradição política: erramos. Achavámos que jamais um professor seria perseguido por discutir questões de gênero em sala de aula e que propostas como a Escola sem partido** não encontrariam encontrariam lugar no século XXI: erramos.
Hoje percebemos que não estamos sós. A vitória de Donald Trump veio para desmoralizar aqueles que nos ensinaram esses mesmos modelos, essas mesmas teorias que pouco nos orientam neste horizonte em que prevalece o obscurantismo, o ódio de classe, de gênero e de raça. Enfim, o ano de 2016 veio para nos ensinar que estamos todos errados. Ou, nas palavras de Paul Krugman, para demonstrar que pessoas como nós “leitores do New York Times, não entendem de fato o país em que vivem. Achavámos que a maioria dos americanos valorizava a democracia e o estado de direito. Estávamos errados. Há um grande número de pessoas … que não compartilham a mesma ideia de América. Para eles se trata de sangue e solo, do tradicional patriarcado e da hierarquia racial.”
Sobre Trump, é preciso salientar que suas perfomances discursivas têm sido traduzidas e simplificadas a partir do conceito de populismo, que se apresenta como panacéia intelectual para tipificar pejorativamente as lideranças políticas que não contam com a nossa aprovação. A este respeito é preciso salientar que se utilizarmos o conceito com alguma propriedade, como o fez Ernesto Laclau em A Razão Populista (2005), podemos utilizá-lo como uma ferramenta interessante para a análise dos contextos políticos. Em sua definição, o que caracteriza uma performance populista seria a evocação dos oprimidos como sujeito político a ser empoderado. Deste modo, é possível vislumbrar uma ambiguidade nos discursos de Trump que ora se apresenta como um defensor do cidadão comum, ora assume-se como um iconoclasta em sua crítica às funções redistributivas do Estado.
Não obstante, diferentemente do populismo, cuja aplicação ao contexto estadunidense revela a ambiguidade do candidato vitorioso, o mesmo não pode ser dito da dicotomia entre direita e esquerda. Trump está claramente à direita de Clinton, assim como o governo Temer está à direita do governo Dilma e como, de modo geral, estão cada vez mais à direita os eleitores das Américas e da Europa – com a brava excessão de Portugal, cuja geringonça tem funcionado como uma miríade para aplacar as frustrações e o desespero dos que, como eu, se encontram rodeados de más notícias.
Por fim, uma última ressalva. Aqueles que, diante das eleições nos Estados Unidos, ou do impeachment no Brasil, se mantiveram alheios escondendo-se por traz de bordões  pejorativos que reduzem os políticos a uma só corja, diante da qual não faria sentido diferenciar direita e esquerda, resta aguardar pelas lições que a própria realidade lhes oferecerá. No Brasil o novo governo já está se encarregando de ensinar aos incautos sobre tais diferenças****.

 

*O termo aqui evoca o período da Restauração Francesa, situado entre 1814 e 1830 e caracterizado pela rejeição dos valores que pavimentaram a revolução de 1789.

** O Escola sem Partido surge como um movimento contra “a doutrinação política e ideológica em sala de aula, e de outro, a usurpação do direito dos pais dos alunos sobre a educação moral e religiosa dos seus filhos”, explica Miguel Nagib, advogado e coordenador da organização. Ver: http://www.programaescolasempartido.org.

***http://www.nytimes.com/interactive/projects/cp/opinion/election-night-2016/the-unknown-country?action=click&pgtype=Homepage&clickSource=story-heading&module=span-abc-region&region=span-abc-region&WT.nav=span-abc-region

**** Em 26 de outubro a Câmara dos Deputados brasileira  aprovou a Proposta de Emenda à Constituição 241 que estabelece um limite pelos gastos públicos federais pelos próximos 20 anos.

Mayra Goulart
mayragoulart@gmail.com

Professora de Teoria Política e Política Internacional e Vice-Coordenadora do Curso de Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Coordenadora do Observatório dos Países de Língua Oficial Portuguesa (OPLOP/UFF) e Pesquisadora Visitante do CIES (ISCTE/IUL).

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