Medeia é bom rapaz: da subversão de Eurípedes à de Luis Riza, por Fernanda Lapa

Medeia é bom rapaz: da subversão de Eurípedes à de Luis Riza, por Fernanda Lapa

A peça de Eurípedes, «Medeia», é considerada subversiva em vários domínios nomeadamente pela centralidade e força do papel desta mulher (estrangeira na Grécia, mas ocupando aí um lugar entre a elite dirigente), extremada na sua paixão amorosa (rouba o velo de ouro ao seu povo, nomeadamente aos seus pais, e não hesitou também em matar o  irmão, tudo para seguir a sua paixão, Jasão, um nobre grego em busca de um tesouro que o faça ser príncipe nas terras gregas…) e na forma como lida, posteriormente, com a traição do seu príncipe (que a quer trocar pela filha do rei Creonte, e assim ascender mais socialmente…): matando a «filha do rei» e os seus próprios filhos… É um figura feminina poderosa e impetuosa, inesperada, sobretudo numa mulher, na Grécia antiga, e que tem inspirado inúmeras reescritas ao longo do tempo, por exemplo, por Heiner Muller, Pasolini ou Luis Riza…

Ao carácter subversivo já presente no original de Eurípedes junta-se outra tanta dose de subversão na versão gizada por Luis Riza, «Medeia é bom rapaz», em cena pela Escola de Mulheres – Oficina de Teatro, pilotada pela encenadora Fernanda Lapa: Medeia e a sua ama são homens, travestidos, que, tal como na peça de Samuel Beckett, esperam interminavelmente e sem sucesso, a chegada de Jasão (tal como Godot)…A força original da Medeia é aqui travestida em altivez, da Medeia, e lúcido cinismo, da ama, junto com uma forte fragilidade e insegurança de ambas, numa sociedade altamente hierarquizada e estratificada (a Medeia versus a ama…os de cima versus os de baixo…), além de dominada pelos homens… à complexidade da peça original junta-se  outra tanta nesta versão de Luis Riza, muito influenciada por Antonin Artaud, Samuel Beckett e Heiner Muller. Não é uma peça fácil (!), mas é seguramente muito interessante, seja pela força e importância estruturante do tema clássico, seja pela originalidade transformista desta versão, e está muito bem encenada por Fernanda Lapa (a quem agradeço o convite, tal como à São José Lapa), e muito bem representada por André Leitão e Ruy Malheiro! Recomenda-se vivamente, portanto.

Do programa da peça, em cena pela Escola de Mulheres – Oficina de Teatro, ficamos ainda a saber que Fernanda Lapa a levou à cena pela primeira vez em 1992, no meio de uma forte desavença com a então diretora do TNDM II, Agustina Bessa Luís, que a tinha convidado não só a encenar esta tragédia de Eurípedes, mas também «a coligir uma série de textos contemporâneos sobre os Mitos Gregos», mas o contrato firmado em 1992 nunca foi cumprido…  Apesar de Fernanda Lapa ter finalmente levado à cena a Medeia de Eurípedes, em 2006, no TNDM II… dada a atenção já revelada pelo novo diretor do TNDM II, Tiago Rodrigues, em relação aos clássicos gregos, e dada a importância da Medeia original… talvez não fosse despiciendo o TNDM II recuperar o plano de 1992 nunca cumprido pela então diretora… uma ideia, uma sugestão, para quem de direito…

André Freire
andre.freire@meo.pt

Professor Catedrático em Ciência Política. Foi diretor da Licenciatura em Ciência Política do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (2009-2015). É desde 2015 diretor do Doutoramento em Ciência Política do ISCTE-IUL. Investigador Sénior do CIES-IUL. Autor de numerosas publicações em livros e revistas académicas. Perito e consultor convidado de várias instituições nacionais e internacionais.

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