Mário Soares: Incontornável e controverso

Mário Soares: Incontornável e controverso

A noticia da morte de Mário Soares, na tarde do dia 7 de janeiro, não chegou com surpresa, aliás muito pelo contrario. O antigo Presidente estava inernado desde 13 de dezembro e as suas condições de saúde eram, desde então, muito graves.

 

Assim, por volta das quatro da tarde, subitamente, no Facebook, começam a aparecer as primeiras mensagens, uma após a outra, até encher os “muros” de todos. Entre muitos, Ana Rita Feirreira, politóloga, de uma geração que sempre viveu em liberdade, escreveu: “Devemos-lhe tudo. Obrigada. Sempre. Por tudo. Sobretudo por nos ter permitido viver em democracia e liberdade”. O Diário de Noticias, por seu lado, titulava assim a página central do seu sítio na internet: “Morreu o primeiro presidente de todos os Portuguêses”.

A vida de Mário Soares foi uma vida de grande protagonista na vida politica portuguesa, muito embora ele tinha tido, entre os cargos de chefia do topo do estado, apenas os seguintes: Primeiro Ministro somente 4 anos e Presidente da Republica durante 10, na loga éra do Cavaco Silva.  Claro foi também Ministro dos Negócios Estrangeiros, Deputado e Deputado Europeu, mas o mais importante é todos percebem muito bem que o seu papel transcende bastante os vários cargos que ocupou. Nos anos da ditadura, como opositor e advogado defensor dos adversarios do Estado Novo. Sim porqué não há duvida sobre o facto de que o elemento central da vida do fundador do Partido Socialista tinha sido uma profunda e enraizada convicção antifascista, contra um regime que hoje poucos definem assim, mas que na altura ninguem tinha duvidas.

Soares é também uma figura em alguns aspectos controversa, e ainda bem que é assim numa democracia. Ainda hoje, após quarenta anos, não estão apagadas as divergências que caracterizaram o período pós revolucionario entre socialistas, comunistas e, de uma forma geral, a esquerda mais radical. Poìs eram os anos da Guerra Fria, do golpe no Chile (1973) e do fim da guerra no Vietnam. Por um lado, Kissinger desconfiava que o país pudesse estabilizar; por outro lado, em Portugal, e em geral na Europa, o sonho de uma revolução parecia estar a um passo do alcance.

Aos olhos de alguns, a Soares coube um papel quase semelhante ao do Palmiro Togliatti, secretário geral do Partido Comunista Italiano: em nome do realismo teria “sacrificado” a luta contra as disegualdades. Para outros teve o mérito de evitar a implantação de «um regime socialista do tipo dos realmente existentes», ou seja, ao estilo das democracias populares, e de estabilizar a democracia liberal, representativa e pluralista, ao estilo ocidental. Não sou um especialista deste periodo, mas se o modo da transição portuguesa é relativamente semelhante ao da Espanha e ao da Itália, penso que as margens de manobra não eram muitas e que os actores que protagonizaram aquele periodo, Soares, mas também Alvaro Cunhal, conseguiram um acordo para escrever, e aprovarem juntos, uma boa Constituição, a de 1976 (os únicos a votarem contra, se bem me lembro, foram os deputados do CDS).

Mas enfim, o País está de luto, porque quando uma figura tão carismatica vem a faltar, também as controversias, inevitáveis, passam para segundo plano. Não é este o momento de um juizo histórico, esse virá depois, mas na hora da despedida, vale a pena usar também as palavras que proferiu Luís Inácio Lula da Silva, a propósito de Soares: foi um “um dos grandes homens públicos do século XX, não só de Portugal, mas da Europa e do mundo”.

Qualquer que seja a opinião sobre o antigo presidente, é inegavel que com a sua morte è um mundo que está a desaparecer, aquele das paixões politicas totalizadoras e arrebatadoras. Uma referência incontornável, um dos ultimos, se não o último de um período extraordinário: o da luta antifascista, paga com treze anos de prisão, e o da Revolução dos Cravos.

Goffredo Adinolfi
goffredoadinolfi@hotmail.com

Vivo em Lisboa há vário anos, mas sou de nacionalidade italiana e belga. Fui Erasmus em Portugal entre 1998 e 1999. Em 2005 doutorei-me em Historia Contemporânea pela Universidade de Milão e desde então sou Investigador em Ciência Politica, no CIES-IUL do ISCTE-IUL, com financiamento da FCT. Sou ainda comentador convidado e/ou consultor (pro bono, ocasionalmente) de várias rádios, televisões e jornais, nomeadamente a Presa Diretta (Rai), o programa Prós e Contras (Rtp), o Jornal da Noite (Rtp), a Economico Tv, a Radiopopolare, a Radio 24. Desde 2011 colaboro regularmente com o diário italiano Il Manifesto.

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