Marcelo e nós (II): deixar correr o marfim ?

Marcelo e nós (II): deixar correr o marfim ?

Marcelo é um político do centro-direita – e um político inteligente. A sua formação, como ele próprio recordou há pouco, foi feita dentro de uma correnre de “direita social”, próxima do que poderia ser em Portugal uma democracia-cristã ou mesmo um social-cristianismo. Como tal, sente-se próximo do grande entendimento entre centro-direita e centro-esquerda que ergueu o modelo social europeu no pós II Guerra Mundial. Apesar de várias vezes ter corporizado criticas conservadoras e apontado soluções de entendimento preferencial à direita (o acordo com o CDS quando era lider do PSD), nunca cortou as pontes, pessoais e políticas, com sectores do centro-esquerda. As nomeações que fez para o Conselho de Estado (Guterres e Eduardo Lourenço) testemunham dessa preocupação

Não é de estranhar que se tenha visto na situação de ser rejeitado pela liderança ideologicamente distinta de Passos Coelho, que tudo fez – com a ajuda de Paulo Portas – para o afastar do sonho presidencial. Mas a sua facilidade em entrar todos os domingos em casa dos portugueses com um aparente bom senso e boas doses de ambiguidade (mesmo que por vezes caísse no exagero que Ricardo Araujo Pereira bem caricaturou por ocasião da discussão da legislação sobre o aborto) e de afastamento critico em relação ao que era uma dupla impopular, deu-lhe uma base para tentar a sua chance com as devidas distancias em relação aos aparelhos partidários. A sua campanha presidencial foi original (temos de o reconhecer). E o seu sentido de equilibrio (por vazes aparente) veio ao de cima. Os portugueses, sabe-se, prezam a ideia de ter um “presidente independente”.

Era imperioso distanciar-se quer de quem deixara escapar a maioria parlamentar, quer de quem terminava o mandato presidencial em verdadeira agonia, sem alienar o seu eleitorado que era, em grande parte, comum ao desses perdedores. Não escondeu ao que vinha: o governo da “geringonça” tinha  legitimidade que lhe era dada pela maioria parlamentar – e não é desconhecido do sistema parlamentar que o partido/coligação mais votado fique na oposição (vide o caso actual da Noruega). Por isso, não seguiria a linha de Cavaco, que teria dissolvido o parlamento e convocado eleições antecipadas se dispusesse de poderes para tal – o que não sucedia (a AR estava protegida por um periodo de 6 meses subsequentes à eleição de 4 de Outubro em que não poderia ser dissolvida). Como era desejo de Passos e Portas.  Mas Marcelo já o podia ter feito a partir de 4 de Abril… Não o fez. Porém, não deixou de mandar um recado: vamos aguentar até às autarquicas de 2017. Para a direita, a mensagem era clara: recuperem o folego, apresentem-se como alternativa, conquistem a opinião pública que vos é adversa. Para as esquerdas, era igualmente limpida: têm dois anos para mostrar o que valem.

Por detrás desta atitude estavam cálculos – não fosse Marcelo o inventor dos “cenários políticos”. O primeiro dos quais era ganhar tempo para se afirmar e reinventar o lugar do PR no imaginário dos portugueses (como defendi no post anterior). E para ver em que paravam as modas. Sem se comprometer. Como ele referiu há dias, “não me venham dizer que o roxo é violeta-rosa…”

O que este ano e pico tem vindo a mostrar é que a habilidade política de António Costa não tem dado qualquer pretexto para que se ponha em causa a legitimidade desta solução governativa. Os “compromissos europeus” e os acordos à esquerda tem encontrado um modus vivendi de tensão que não rompe, mantendo  o PR satisfeito pela estabilidade que proporciona e pela pacifica relação com as autoridades de Bruxelas. E todos os estudos de opinião vem a mostrar que, em havendo eleições a curto prazo, seria a esquerda a grande vencedora, uma vez que o PSD e o CDS não aguentam sequer o nivel de intenções de voto que tinham há um ano e meio. O PR não tem grande margem para pôr em causa a solução governativa – só pode intervir pontualmente

Mas não creio que Marcelo, que é sonhador, tenha desistido de encontrar uma outra solução, mais próxima de “cenários” que já experimentamos. Manifestamente, o PR tolera a “geringonça”, mas não se lhe peça que morra de amores por ela. E neste quadro, as eleições autárquicas podem ser um momento importante na afinação da sua estratégia para os dois anos seguintes.

A não ser que haja uma grande surpresa na noite de 1 de Outubro, a “geringonça” não sairá abalada. O que coloca a bola no campo da direita. Passos Coelho pode entender chegado o momento de disputar umas eleições internas, que ocorrerão sempre antes de meados de 2018. E aí pode surgir um candidato tipo Rui Rio que afirma sem pestanejar que o governo de António Costa teve “sorte, criatividade e mérito” – e possa assim inverter a deriva direitista e autista que Passos imprimiu ao PSD, abrindo portas à recomposição de um eixo central que têm estado fechadas, e que não serão abertas com as actuais lideranças do PS e do PSD. Para Marcelo, uma solução deste tipo permitiria “libertar” o PS da necessidade dos acordos à esquerda, recentrando a política portuguesa em moldes mais clássicos. Como os que ele protagonizou quando era lider do PSD e se entendeu com Guterres que chefiava um governo minoritário. Creio que Marcelo esfregaria as mãos de contente – e seria duro com António Costa nos dois anos que se seguem até às legislativas, tentando evitar uma maioria absoluta do PS que prescindisse dos seus bons ofícios…

Mas Passos – ou alguém por ele –  pode aguentar, e até vencer uma batalha partidária pela liderança, mantendo a politica do ressentimento, e apostando em ganhar uma maioria absoluta nas legislativas (em coligação pré-eleitoral com o CDS). Com Passos ou um alter ego dele à frente do PSD, apostado no bota-abaixo e avesso a qualquer entendimento com o PS,  e se as autarquicas confirmarem o que dizem as sondagens actuais  – que a direita está longe de poder sonhar com maiorias – então Marcelo dispõe de um Plano B: com o intuito sempre presente de subtrair o PS às “más influências” que vêm da necessidade de procurar entendimentos à esquerda, Marcelo pode muito bem passar a apostar num apoio mais decidido a António Costa, torcendo para que ele obtenha uma maioria absoluta. Talvez entenda isto como um mal menor – mas pode até trazer como brinde um apoio (mais ou menos declarado) do PS à sua reeleição, onde terá como objectivo ultrapassar a marca mítica de Soares em 1991 (70,35%).

Quem entende que a “geringonça” tem virtualidades políticas, e não se deixa levar pelo canto de sereia de António Costa que promete manter o seu “espírito” mesmo que tenha uma maioria absoluta, tem obrigação de estar atento. Há sinais inquietantes (politica em relação ao defice) e sinais de esperança (relatório sobre as opções de redução da divida publica). Em geral, as inquietantes vêm do governo, e as esperançosas do PS e dos seus parceiros. Esta dicotomia governo/partido dá que pensar…

Marcelo está atento e não se coibirá de por a sua “auctoritas” ao serviço da sua “potestas”, influenciando o rumo dos acontecimentos. Não creio que o faça no sentido de sustentar indefinidamente a “geringonça”, mas de investir na criação de condições para um recentramento político às custas da margem esquerda. Estejamos atentos.

 

PS: Uma irritante gralha decorrente do corrector automático levou a que no post anterior aparecesse várias vezes a palavra “protestas” em vez de “potestas”. Peço desculpa.

Rui Graça Feijó
ruifeijo@gmail.com

Desde que acompanhei os pais a um comício da CDE nas eleições de 1969, com 15 anos de idade, tenho deambulado pelas esquerdas (Pró-associação dos liceus do Porto, LCI, UEDS, MASP I e II, Clube da Esquerda Liberal, PS - de que fui vereador na CMPorto com o Fernando Gomes - campanhas presidenciais de Jorge Sampaio, Manuel Alegre - infelizmente só a segunda, que estava em Timor em 2005 como adjunto do Xanana - e António Sampaio da Nóvoa, e ainda MIC/Porto, CDA, Movimento 3D, Tempo de Avançar, Forum Manifesto. Um verdadeiro peregrino! Agora regresso aos tempos de vida no campo (em criança e em adulto) e olho pasmado para a Vaca Voadora. Ah! E sou historiados/investigador em ciências sociais e políticas, com uma recente agregação em "Democracia no Século XXI"" (FEUC/CES)

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