Macron, Renzi, o socialismo e as eleições primarias

Macron, Renzi, o socialismo e as eleições primarias

30 de Abril: eleições primárias abertas para a eleição do secretário do partido democrata e, provavelmente, candidato a primeiro-ministro. Ainda um plebiscito, sinal de uma democracia-liberal que tem cada vez mais dificuldades, face aos dramáticos resultados económico/sociais, em encontrar uma legitimação plena.

É o enésimo encontro, antes do referendo sobre a reforma da constituição, a 4 de Dezembro do ano passado e, antes ainda, de outras primárias, em Dezembro de 2013.

Os resultados? Bom, ganhou Matteo Renzi, como estava previsto; engraçado porém, ser eleito duas vezes através de primárias, ter sido presidente do conselho, mas nem sequer ter enfrentado uma eleição legislativa. Tecnicamente não há nada de mal, mas enfim…

A pergunta poderia ser: o que vai acontecer agora? É muito provável que tudo continue igual, já parecia que a vitória do não em Dezembro passado fosse precipitar tudo e, no entanto, nada, estamos no ponto de partida, tudo na mesma como antes, com um secretário, Renzi, que tinha prometido retirar-se da política em Dezembro passado… e não, surpresa, está de novo em cena, um pouco debilitado, menos brilhante, mas sempre ali!

Claro, tudo igual mas também tudo diferente, porque é certo que Renzi triunfou sobre os seus adversários, mas os números não são particularmente encorajadores. Até porque os votos a favor do neo-vetero secretário passaram de 1895000 a 1283000, uma perda directa de 600 mil unidades.

E depois, mesmo o instrumento das primárias começa a mostrar sinais evidentes de cansaço. Em 2007 tinham votado mais de 3,5 milhões de pessoas, em 2013 desceram para 2,8 milhões, este ano a fasquia ficou-se por pouco mais de 1,8 milhões.

É verdade que no voto entre os inscritos, Renzi esteve melhor este ano em relação a 2013, mesmo se, confrontando o valor percentual com o dos votantes nas primárias, o valor seja pior (2013: 66%/70%; 2017: 45%/67%).

No fundo, pode dizer-se que o ex-primeiro ministro tenha mais fama fora do partido, especialmente à direita, do que dentro e que, no decurso dos anos e das cisões, tenha, de certo modo, conseguido fazer-se apreciar. Depois é necessário sublinhar como o Partido Democrático perdeu 100 mil inscritos (em relação a 2013, 500 mil em relação a 2007, passando de 970 a 449).

Em súmula, avança-se cada vez mais rápido na direcção do partido líquido, sem ideias, projectos e sempre mais virado à direita. Mais, agora que Emmanuel Macron, também ele jovem como Renzi, conseguiu ter uma forte afirmação, muitos em Itália olham para a experiência francesa, onde o partido se transformou num comité eleitoral de cunho tão pós-moderno que faz lembrar os modelos políticos de Oitocentos.

Goffredo Adinolfi
goffredoadinolfi@hotmail.com

Vivo em Lisboa há vário anos, mas sou de nacionalidade italiana e belga. Fui Erasmus em Portugal entre 1998 e 1999. Em 2005 doutorei-me em Historia Contemporânea pela Universidade de Milão e desde então sou Investigador em Ciência Politica, no CIES-IUL do ISCTE-IUL, com financiamento da FCT. Sou ainda comentador convidado e/ou consultor (pro bono, ocasionalmente) de várias rádios, televisões e jornais, nomeadamente a Presa Diretta (Rai), o programa Prós e Contras (Rtp), o Jornal da Noite (Rtp), a Economico Tv, a Radiopopolare, a Radio 24. Desde 2011 colaboro regularmente com o diário italiano Il Manifesto.

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