ISTO NÃO É UM BORDEL

ISTO NÃO É UM BORDEL

Quando, periodicamente, pessoas atentas ao que se passa no país se manifestam publicamente no sentido de que não existe uma extrema-direita com base social de apoio equivalente à que existe noutras latitudes porque o PCP tem tido a capacidade de a conter, dando-lhe expressão no plano do protesto e das reivindicações, é estar a fazer-se uma caricatura do fenómeno. É, além disso, atribuir um estatuto de menoridade ao eleitorado e querer fazer crer que os trabalhadores não sabem distinguir os seus inimigos de classe. É, também, defender que a luta de classes chegou ao fim e que agora todos os combates são transversais. E não são.

Quase meio século de fascismo explicam melhor essa recusa pela extrema-direita do que os lugares-comuns em que assenta essa teoria. A melhor evidência estatística disso é, casuisticamente,  a deslocação, sobretudo para o PS, desse eleitorado, mesmo na presença de partidos à direita do CDS. O fenómeno francês, aquele que é dado como exemplo e  tem servido para sustentar essa ideia,  é velho de décadas, e teve o seu início na ilusão das virtudes do  eurocomunismo, com Georges Marchais na qualidade de secretário-geral do PCF; sobre o VOX castelhano, está tudo dito, não é mais do que um subproduto do PP, como está à vista. Não sendo fenómenos equivalentes, todas as conclusões sobre o assunto não passam, por isso, de conjecturas, boas para acrescentar argumentos à especulação, mas inúteis para comprender o que se está a passar. E sobre o que se está a passar, pergunte-se à social-democracia europeia o que fez para prevenir a onda de extremismos que invadiu a Europa, atravessou o Atlântico,  o canal do Panamá e voltou a instalar-se na América do sul. Ao participar na deriva da financeirização da economia, deixou para trás os pequenos e médios produtores, a sua principal base social de apoio, lançando-os nos braços dos aventureiros políticos. Aqueles que prometiam para ontem o que não podiam cumprir amanhã.

Aprofunde-se então os efeitos do regime fascista e a acção de quem o combateu, e teremos, porventura, uma explicação mais aproximada da aversão do eleitorado aos apelos da extrema-direita. É que, passado quase meio século, continua a existir no país uma cultura anti-fascista. E, sobretudo, nunca esquecer que houve uma revolução cujos valores permanecem na memória dos portugueses. Na memória, e nas escolhas, porque não há escolhas sem memória, e as memórias deixadas pelas revoluções são particularmente  difíceis de apagar.

Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

No Comments

Post A Comment

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.