Há mais coisas debaixo da céu do que a nossa vã filosofia

Há mais coisas debaixo da céu do que a nossa vã filosofia

As jornalistas Márcia Galrão e Rita Tavares publicaram recentemente, na editora Lua de Papel, o thriller político Como Costa Montou a Geringonça em 54 Dias. Desde logo se deve afirmar que  as autoras têm o engenho de em 300 páginas conseguirem fazer uma síntese do que foi o frenesim político daqueles dias e como os diversos actores partidários contribuíram, à sua maneira e autonomamente, para que a solução política fosse construída. Sem necessidade de se socorrerem do buraco da fechadura, antes recolhendo a informação directamente das fontes ou da informação publicada.

Não pretendendo ser um tratado de análise política, da sua leitura ressaltam seis aspectos principais. Um, os quatro anos de governação da direita não se podiam repetir. Dois, existia uma exigência dos militantes do PS, BE, PCP e PEV para que se examinasse a possibilidade de se constituir uma solução alternativa à realmente existente. Três, havia da parte das direcções partidárias a consciência de que o comboio estava a parar por breves minutos na estação para os recolher. Quatro, os resultados eleitorais eram demonstrativos de que existia uma base eleitoral e social de apoio a uma solução comum. Cinco, existem naqueles partidos dirigentes para quem os anos que se seguiram à Alameda lhes dizem pouco e que nesses anos foram estabelecendo entre si relações de proximidade, facilitando a comunicação entre as respectivas organizações partidárias. Seis, o espírito de confiança e lealdade foram os valores que conduziram sempre as negociações até às 13h30 do dia 10 de Novembro, na sala Tejo da Assembleia da República.

O trabalho de Márcia Galrão e Rita Tavares tornam também evidente que o líder do PS considerou sempre indiscutível e inquestionável uma solução à esquerda, tendo para o efeito desenvolvido a táctica do confronto político aberto com a direita de maneira a eliminar qualquer ilusão de compromisso governamental. A sua firmeza foi absoluta  tanto com os líderes da direita como com o então Presidente da República.

Se ainda não o fizeram, atrevo-me a incitar os cineastas portugueses a ler a obra, e a equacionarem a possibilidade de a transporem para o cinema, uma vez que enredo não lhe falta.

Nota: o título deste artigo é uma paráfrase do fala de Hamlet, cena I, acto V

Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

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