‘Gatopardos’ e novos alinhamentos após o tsunami do 4M italiano

Itália

‘Gatopardos’ e novos alinhamentos após o tsunami do 4M italiano

E afinal o terramoto veio e com ele uma mudança profunda no sistema partidário italiano. Mais de 55% dos eleitores votaram em forças antissistema. Comparativamente ao resto da europa (dados Eurobarómetro), os italianos são os que pensam serem os serviços proporcionados pelo estado os de menor qualidade.

Esta é, provavelmente, a imagem que mostra, de uma forma mais clara, quão grande é a barreira entre os cidadãos e a política. A desconfiança (dados Eurobarometro) em relação à democracia representativa, de facto, foi aumentando ao longo do tempo, até se chegar a 2017, ano em que só pouco mais de 10% de população afirma acreditar em partidos, parlamento e governo.

Mas vamos por partes, antes de mais os resultados. A coligação de centro-direita, apesar de ter ficado pouco abaixo dos 40%, não obteve a maioria absoluta de assentos. O Movimento 5 Stelle, o grande vencedor desta jornada, é com cerca de 30% dos votos, o  perno central para a futura vida política do país. O centro-esquerda tem uma derrota profundíssima, chegando apenas aos 25%. Pouco se sabe sobre a natureza do próximo governo. Porém, estes dados dizem pouco porque é possível que as alianças pré-eleitorais se descartem e que o novo executivo seja o resultado de uma recomposição de forças, neste momento, imprevisível.

Se é difícil antever uma aliança governamental, num outro aspecto os resultados das eleições do passado dia 4 de Março são inequívocos: a Segunda República, nascida na esteira dos processos da operação Mani Pulite contra a classe dirigente da Primeira, está oficialmente morta. A Lega de Matteo  Salvini, já não Norte como antes, triplica os seus votos de 5% para 17%, superando de forma clamorosa a Forza Italia que viu cair os seus resultados de cerca de 30% em 2001 para 14, 4%. Na base de uma afirmação tão consistente está um discurso de soberania, xenófobo e antieuropeu. Na mesma linha da Lega, embora com tonalidades diferentes, encontra-se o terceiro braço do centro-direita, Fratelli d’Italia (FdI) os herdeiros do que foi o Movimento Sociale Italiano, que têm no símbolo a chama que arde sobre o túmulo de Benito Mussolini, que passa de 2 para 4%.

Lega, FdI, M5S congregam, em conjunto, mais de metade dos votos expressos. Três formações que de uma forma ou de outra não representam apenas uma alternância no interior do sistema político, mas uma possível mudança do funcionamento do próprio sistema político.

Embora com alguma ambiguidade e vários passos para a frente e para trás, os projetos dos ‘pentastellati’ estão lá, escritos preto no branco: críticas à Europa, e em particular à sua moeda, o Euro, culpados, nas suas palavras, de uma perda de competitividade económica dos países do sul do continente. E depois está a democracia direta, o grande projeto de Gianroberto Casaleggio, o apelo ao povo sem intermediações. Uma e-democracy exercida através da plataforma Rousseau.it o “sistema operativo” através do qual os cidadãos/militantes podem exprimir, na forma de um plebiscito, com um sim ou com um não, a sua própria opinião sobre a lei do “não” partido.

São muitas as razões que levaram a uma sonora reprovação de todos os protagonistas da vida política das últimas duas décadas, em particular do partido democrático de Matteo Renzi, que passou dos 40% obtidos nas eleições europeias de 2014, para uns escassos 20%. Em pano de fundo os receios de uma globalização despersonalizante que, por outro lado, está na origem da crise económica de 2008. Condições de vida cada vez mais precárias e, por isso, um futuro que parece pouco reconfortante. Assim, a comunidade, mesmo que virtual, torna-se um refúgio.

Não é casual que as formações que mais se lançaram contra a imigração e a favor de um retorno da soberania, entre as quais o 5 Stelle, tenham visto aumentar os seus resultados.

Mudar tudo para que nada mude? O que realmente significa o termo anti-establishment? Afinal é um facto que, na percepção da maioria das pessoas e dos comentadores, no futuro próximo da Itália, e da Europa, as mudanças até possam vir a ser pouco significativas. Mais: há também a contradição de partidos anti-establishment que possam permitir ao establishment sobreviver. Todavia, etapa após etapa, eleição após eleição, o espectro do populismo reforçou-se em França com o Front Nacional (FN), na Alemanha com a Allianz für Deutschland (AfD), na Áustria com o Freiheitliche Partei Österreichs (FPÖ), mas é em Itália que obteve a sua vitória mais consistente.

Isto é, não se pode compreender a Itália sem olhar para o mundo ocidental no seu conjunto. Não é uma coincidência que Steve Bannon, estratega da campanha eleitoral do presidente dos EUA, Donald Trump, seja um dos grandes entusiastas dos resultados desta jornada eleitoral, ele que numa entrevista apresentada há poucos dias, apoiou a hipótese de uma formação de governo Lega/5Stelle.

Resumidamente, são duas as dimensões que marcam a diferença do M5S e da Lega em relação aos partidos ‘mainstream’: o alinhamento na política estrangeira e o antiliberalismo. Em relação à primeira dimensão: a Lega e o M5S olham com um certo interesse para Putin enquanto os Fratelli d’Italia não escondem uma proximidade a Victor Orban. Assim, conforme as possibilidades, e tendo também em conta a guerra comercial que Donald Trump parece querer abrir contra a Europa, a política externa da península poderia olhar mais para os países do grupo de Viségrad do que para Bruxelas, para modelos mais autoritários e menos liberais.

 

 

Goffredo Adinolfi
goffredoadinolfi@hotmail.com

Vivo em Lisboa há vário anos, mas sou de nacionalidade italiana e belga. Fui Erasmus em Portugal entre 1998 e 1999. Em 2005 doutorei-me em Historia Contemporânea pela Universidade de Milão e desde então sou Investigador em Ciência Politica, no CIES-IUL do ISCTE-IUL, com financiamento da FCT. Sou ainda comentador convidado e/ou consultor (pro bono, ocasionalmente) de várias rádios, televisões e jornais, nomeadamente a Presa Diretta (Rai), o programa Prós e Contras (Rtp), o Jornal da Noite (Rtp), a Economico Tv, a Radiopopolare, a Radio 24. Desde 2011 colaboro regularmente com o diário italiano Il Manifesto.

No Comments

Sorry, the comment form is closed at this time.