Frei Tomás vai a Berlim

Frei Tomás vai a Berlim

No dia a seguir à sua tomada de posse, o presidente francês Emmanuel Macron deslocou-se a Berlim para conversar com Angela Merkel. Fez exactamente o mesmo que o seu antecessor de triste memória François Hollande havia feito cinco anos antes. E parece que com o mesmo propósito: relançar o eixo franco-germânico na base de uma viragem política por parte dos teutões. Vale a pena fazer uma comparação com o que Hollande dizia faz agora cinco anos: as diferenças são muito pequenas. Em ambos os casos a Alemanha é gentilmente convidada pela França a fazer uma viragem política para “refundar a Europa”. E os argumentos também não mudam: o caminho que a “Europa” leva conduz a um triste fim às mãos dos “populismos de direita e de esquerda” que é como quem diz: à incapacidade dos cidadãos europeus tolerarem um desgoverno que há muito vem sendo protagonizado por Bruxelas, com Berlim a manobrar os fios que sustentam as marionetas. É uma leitura realista das recentes eleições francesas, não há dúvidas: os opositores do status quo mostraram que representam – de modos radicalmente diferentes entre si – a maioria do eleitorado gaulês!  E por isso mesmo Angela Merkel deu uma no cravo, outra na ferradura: sim, estamos dispostos até a reformar tratados, mas não já, calma minha gente, ainda temos as nossas eleições à porta e não se pode dar sinais que o regabofe que alguns querem tem pernas para andar. Lá mais para diante, quando Macron tiver o seu parlamento (eleito dentro de três semanas), ele irá acalmar e ver a razão. Terá cinco anos para digerir os problemas, se calhar para que eles provoquem uma indigestão, mas enfim… E depois das eleições alemãs, então sim: se ainda houver uma voz a clamar reformas, iremos tratar do assunto.

O que a História nos diz é que Hollande teve entradas de leão, como agora Macron, e saídas de sendeiro. E nesse triste e lamentável processo em que traiu a palavra dada aos eleitores e a esperança que as esquerdas tiveram que ele não fosse um novo Sarkozy prostrado diante de Merkel, quem é que Hollande teve por perto? Primeiro como conselheiro especial no palácio do Eliseu, depois como ministro da economia, defensor da linha de viragem à direita encetada pelo PS francês, apoiante da passagem de legislação laboral ao arrepio até da maioria socialista (teve de recuperar um odiado preceito constitucional que os socialistas haviam jurado nunca utilizar para aprovar a legislação por decreto presidencial!), quem lá estava era o mesmíssimo Emmanuel Macron

Agora, Macron apresenta um governo que vai das franjas mais à direita do PS a uma direita bem de direita, com vários ministros “centristas”. Dir-se-á que pretende dinamitar as formações políticas tradicionais e criar uma nova força que seja a negação da escolha entre programas alternativos: um centrão onde cabe tudo e o seu contrário (desde que se tenha ambição suficiente para aguentar com os sapos do vizinho na mesa de reuniões do conselho de ministros). E que este pastelão quer corresponder, de forma aggiornata ao entendimento estratégico entre centro-direita (democracia cristã, alguns conservadores, outros tantos liberais) e centro esquerda (social-democracia à la escandinava ou à moda de Willy Brandt e Helmut Schmitt) que dominou o período em que nasceu e se afirmou o “Modelo Social Europeu” agora tão vilipendiado pelos neo-liberais, sobretudo os de pacotilha (que não conhecem as teses de Adam Smith sobre os deveres do soberano…). Um propósito, que a ser levado a sério, põe de facto em causa a deriva recente da UE, em que o nosso querido Durão Barroso tanto se evidenciou.

Entre um discurso no qual podemos vislumbrar pelo menos a consciência de que a via dos últimos anos está mais do que esgotada, e que reformas significativas são necessárias, – e portanto que pode haver parceiro para conversas a sério –  e um percurso histórico de alinhamento com quem se opôs a qualquer vislumbre de recuperação do espirito solidário da EU dos anos 80 e 90 traduzido no seu primeiro governo, Macron balanceia. E como na velha rábula de Frei Tomás, olhemos para o que ele diz (pode ser que tenha coisas interessantes a dizer se porfiar no sentido que agora parece querer enunciar…), mas olhemos também para o que ele fez e continua a fazer para não termos desilusões

A vaca não deve ser cega e preconceituosa, já que por vezes as boas novidades saltam donde menos se espera. Há que ouvir e discutir as palavras que se apresentam como portadoras de uma nova mensagem. Mas a vaca não pode deixar-se enlevar por promessas de “refundação” europeia que não abalem o assento de Herr Schauble…

Rui Graça Feijó
ruifeijo@gmail.com

Desde que acompanhei os pais a um comício da CDE nas eleições de 1969, com 15 anos de idade, tenho deambulado pelas esquerdas (Pró-associação dos liceus do Porto, LCI, UEDS, MASP I e II, Clube da Esquerda Liberal, PS - de que fui vereador na CMPorto com o Fernando Gomes - campanhas presidenciais de Jorge Sampaio, Manuel Alegre - infelizmente só a segunda, que estava em Timor em 2005 como adjunto do Xanana - e António Sampaio da Nóvoa, e ainda MIC/Porto, CDA, Movimento 3D, Tempo de Avançar, Forum Manifesto. Um verdadeiro peregrino! Agora regresso aos tempos de vida no campo (em criança e em adulto) e olho pasmado para a Vaca Voadora. Ah! E sou historiados/investigador em ciências sociais e políticas, com uma recente agregação em "Democracia no Século XXI"" (FEUC/CES)

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