Freguesias, concelhos e governo a votos

Freguesias, concelhos e governo a votos

As eleições de 1 de Outubro além de serem autárquicas são também o primeiro teste popular aos resultados que têm sido alcançados pela maioria parlamentar que apoia o governo. E são também isso porque foi sobre os eleitores que se verificaram os efeitos das medidas aplicadas pelo governo na primeira metade do seu mandato. A decisão do voto é, por isso, neste caso, multifactorial e complexa, nela estando presentes a percepção e o julgamento do impacto dessas medidas, a avaliação que se fizer do trabalho realizado pelos candidatos que renovam a sua candidatura, a natureza das propostas de quem se apresenta pela primeira vez a escrutínio, as características pessoais dos candidatos, a dinâmica da campanha eleitoral e, não menos importante, a coesão e mobilização da base militante e social de apoio dos partidos e movimentos de cidadãos. Perante esta heterogeneidade de motivações, os resultados que se vierem a verificar na noite do dia 1 de Outubro são, naturalmente, incertos. A margem de contingência é sempre maior do que aquela que se verifica em eleições legislativas ou presidenciais.

Nas actuais circunstâncias políticas importa, sobretudo, que os partidos que na Assembleia da República se juntaram ao PS para darem o seu apoio ao governo naquelas medidas que contam para a melhoria das condições de vida dos portugueses vejam aumentadas substancialmente a sua votação e a sua representação nos órgãos autárquicos. Essa é a garantia de que as populações ficarão seguramente mais bem servidas e que foi dado um sinal significativo ao governo de que terá de repartir com maior atenção com o BE e o PCP as decisões que houverem a ser tomadas a partir daquela data. Sem menosprezo pela obra já realizada, continuam sem resposta, ou com respostas muito aquém do que é exigido, um vasto conjunto de problemas, sobretudo de ordem social. Se a política de saúde é um deles, o abandono escolar apresenta valores indesejáveis, as políticas de apoio aos idosos são manifestamente incipientes, a habitação para todos está por cumprir e, noutro plano, a descentralização permanece uma incógnita.

Embora não esteja em causa o cumprimentos dos Acordos de 10 de Novembro de 2015 até ao fim do mandato do governo, os resultados das eleições autárquicas podem desempenhar um papel particularmente relevante no ambiente pós-eleitoral de 2019. E se é defensável afirmar que nessa altura seria desejável replicar o entendimento verificado com aqueles acordos, necessariamente com outras exigências e características, ele será melhor alcançado se o investimento político que foi feito por quem agora ficou fora do perímetro governamental teve o retorno devido às respectivas expectaivas partidárias. É esse exercício que vai estar nas mãos dos eleitores entre as 8H00 e as 19H00 do próximo dia 1 de Outubro.

Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

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