Em 2019 não há OE, diz ele

Em 2019 não há OE, diz ele

Ainda o OE para 2018 estava a sair do forno, e já MRS, naquele seu jeito atrabiliário, iniciava, a trezentos e sessenta e cinco dias de distância, a sua campanha a favor de um OE para 2019 que não tivesse em conta os resultados da execução do que for aprovado lá para finais de Novembro. Sinteticamente, isto quer dizer que é seu desejo que o ano de 2018 seja colocado entre parêntesis, como se tivesse ido passar férias para bem longe, porventura para umas ilhas a sul do equador, de preferência no mar da China. Move-o, sempre o moveu, aquele inabalável sentimento de que o eleitorado não faz suficiente jus à sua direita cujo lugar não devia ser outro senão os corredores e os gabinetes do poder realmente existente, o governo.

Retirado para o seu camarim aquele que levou a direita que conta à sua insignificância política, no imaginário de MRS abre-se finalmente, ao fim de dois anos de dolorosa peregrinação pelos lugares menos recomendáveis, uma frincha na janela do quarto onde toda a sua família partidária tem estado confinada, desde que em 10 de Novembro de 2015 uns quantos lhe pregaram uma partida, resolvendo ir à descoberta de paragens mais amenas. E são as notícias que têm dado que inquietam MRS, mesmo que na aparência mantenha a compostura que o lugar e a função exigem. O ar é mais oxigenado, os rios estão menos poluídos, as feiras estão mais concorridas e os pedestres já apressam mais o passo. Dizem mesmo que estão a fazer planos para se manterem por lá.

Ora é isto que está a fazer da vida de MRS um inferno. Ele não passa uma semana que não vá vasculhar as cinzas de Agosto em busca de argumentos para as suas exigências, ele dá conselhos sobre a melhor maneira de embaraçar os outros, ele almoça com o Provedor a propósito de uns assuntos inadiáveis, ele aponta à cabeça deste e daquele governante, ele declara que sem consensos nesta e noutra matéria voltamos à era pré-galileica, enfim isto é MRS tal como vai para a cama todas as noites.

Resta, portanto, dado o nervosismo que tomou conta de MRS, manter a serenidade. Não há nada como ele ficar possuído de uma certa dose de indisfarçável irritação para os que vivem da análise, da opinião e do comentário terem à mão material suficiente que sustente as suas vocações e lhes dê alguns momentos de alegria e satisfação. E tão pouco é pedir muito.

 

Tags:
, ,
Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

No Comments

Sorry, the comment form is closed at this time.