Eleições em Itália, uma antevisão

eleições em Itália

Eleições em Itália, uma antevisão

No próximo domingo, dia 4 de março, os italianos serão chamados para renovar o parlamento. A consulta popular anuncia ser da maior importância e coloca-se como um daqueles acontencimentos que marcam a historia politica, seja da península itálica, seja do continente europeu.

As regras do jogo: o sistema eleitoral (chamado Rosatellum) é de tipo misto, ou seja, com duas componentes, uma uninominal (37% dos lugares) e outra proporcional, com 61% dos assentos, mais 2% de mandatos para a circunscrição do estrangeiro (inteiramente proporcional). O voto é único, ou seja, não é permitido votar diferentes formações no uninominal e no proporcional. A cláusula barreira para entrar no Parlamento é de 3%, ao nível nacional.

Em competição há tres grandes formações: a coligação de centro-esquerda, formada pelo Partido Democrático, a lista Mais Europa e outras formações menores; a aliança de centro-direita, Forza Italia, Lega, Fratelli d’Italia, mais outras pequenas formações; o Movimento 5 Estrelas.

Há ainda outras duas formações que têm possibilidade de alcançar o 3% da cláusula barreira e merecem ser citadas: Liberi e Uguali, um partido de Esquerda formado de uma cisão do Partido Democrático, junto com  Sinistra Ecologia e Libertà e Potere al Popolo, que nasce de uma experiencia de ocupas em Napoles com a agregação de Rifondazione Comunista.

As sondagens a partir das duas semanas antes da data das eleições são proibidas, portanto é difícil saber qual o peso de cada partido ou coligação. Todavia, mesmo que os números sejam muito incertos é possivel traçar algumas linhas:

A coligação de centro-direita é a que tem mais possibilidades de ganhar, embora oscile por volta dos 35% dos votos, os quais não serão suficientes para alcançar maioria absoluta. É uma volta de Silvio Berlusconi? Até certo ponto. Há uma competição forte dentro da coligação entre FI e Lega, ambos são creditados à volta de 15% cada um. Em 2001, a Liga Norte tinha 4% dos votos e FI 29,43%. Portanto os equilibrios agora são bastante diferentes. Uma volta consistente da extrema direita também. A Liga de Salvini não é a Liga Norte de Umberto Bossi já que a referência na Europa de Salvini é o Front Nacional de Marine Le Pen. Tal como o Fratelli d’Italia de Giorgia Meloni, coloca-se na mesma posição no espectro politico sobre temas ligados a xenofobia e o antieuropeismo. Juntos pode vir a representar 20% dos votos.

Na coligação de centro-esquerda, a liderança de Matteo Renzi está em profunda crise, o Partido Democratico poderá não chegar ao 23%; em 2013 tinha, com Pierluigi Bersani, 29,55% e nas eleições europeias de 2014 conseguiu 40%.

O Movimento 5 Estrelas poderá alcançar os 30% ou mais, evidenciando uma certa estabilidade de consensos dentro do sistema partidario italiano.

Todavia o eixo esquerda -ireita não é o unico com o qual se podem ler as eleições italianas. Em primeiro lugar, as forças mainstream: Forza Italia e Partido Democratico, juntos, não alcançam, conforme as sondagens, os 40% sequer. Em segundo lugar, temos as várias formas de populismo, com diferentes formas mais ou menos radicais de antieuropeísmo e de discurso anti-emigração: Liga, M5S, FdI, juntos estão a volta de 50%.

Poderá haver um parlamento sem a possibilidade de maiorias governamentais? Esta é outra questão em cima da mesa. Quais maiorias? Aparentemente uma maioria mainstream, juntando às duas grandes formações outras mais pequenas poderá não vir ter os numeros suficientes.

Em resumo, a democracia representativa e liberal está a sofrer uma grande crise de legitimação. Desde 2011 o Partido Democrático está no Governo e, com os níveis de vida dos cidadãos a baixar significativamente, é, hoje, a formação mais culpabilizada pela opinião publica (por essa erosão) que, perante promessas falhadas dos seus lideres, procura algures respostas.

E assim, de longe, Victor Orbam e Vladimir Putim aparecem como referências para os Fratelli d’Italia. Giorgia Meloni, o capo politico de FdI, foi encontrar-se com o premier húngaro há alguns dias atras, e o presidente Russo é citado como referência para a politica estrangeira no programa da Liga de Matteo Salvini.

Como é sabido o Movimento 5 Estrelas é favoravel a uma reforma do sistema politico que introduza formas mais consistentes de democracia directa ou, para sermos mais claros, de e-democracy, que deveria se desenvolver atraves do site internet Rousseau, cujo controlo pertence á empresa de Davide Casaleggio, o filho de um dos fundadores do Movimento.

Assim, para resumir, no domingo 4 de março de 2018, os italianos serão chamados a votar para escolher não só o próprio modelo de welfare state, mas também o rumo quanto à Europa e, implicitamente, também o rumo para a democracia.

Goffredo Adinolfi
goffredoadinolfi@hotmail.com

Vivo em Lisboa há vário anos, mas sou de nacionalidade italiana e belga. Fui Erasmus em Portugal entre 1998 e 1999. Em 2005 doutorei-me em Historia Contemporânea pela Universidade de Milão e desde então sou Investigador em Ciência Politica, no CIES-IUL do ISCTE-IUL, com financiamento da FCT. Sou ainda comentador convidado e/ou consultor (pro bono, ocasionalmente) de várias rádios, televisões e jornais, nomeadamente a Presa Diretta (Rai), o programa Prós e Contras (Rtp), o Jornal da Noite (Rtp), a Economico Tv, a Radiopopolare, a Radio 24. Desde 2011 colaboro regularmente com o diário italiano Il Manifesto.

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