Consequências para o regime democrático do entendimento entre as esquerdas

Consequências para o regime democrático do entendimento entre as esquerdas

Para olhar o futuro com lucidez, mas também otimismo, é preciso sabermos das virtualidades da solução política que sustenta o XXI governo constitucional. É esse o objeto deste artigo: Que consequências se espera que tenha esta solução política para o funcionamento dos sistemas políticos democráticos, nomeadamente e acima de tudo devido à inclusão da esquerda radical na esfera governativa?

Primeiro, o sistema político está hoje mais inclusivo e integrador, logo mais democrático, já que cerca de 10% a 18% do eleitorado que tinha estado até final de 2015 permanentemente fora da esfera governativa, embora presente na arena parlamentar, passou a estar integrado também na esfera das decisões governativas.

Segundo, foi um significativo lance de inovação política com uma solução que, ao longo de cerca de 40 anos de democracia, nunca tinha sido ensaiada em Portugal.

Terceiro, esta solução pôs os dirigentes partidários dos partidos de esquerda em maior sintonia com os seus eleitores, em matéria de preferências quanto às soluções de governo, e isso é um elemento que, se perdurar no tempo, poderá ser altamente positivo em matéria da qualidade da representação política, a qual depende precisamente um maior ajustamento das preferências dos representantes com as preferências dos representados.

Caso essa solução perdure no tempo, se revele estável e relativamente bem-sucedida, teremos ainda os seguintes resultados prováveis. Quarto, esta solução poderá reduzir o significativo centrismo ideológico do PS, quando o comparamos com a maioria dos seus congéneres da família socialista europeia. Esta solução poderá fazer aumentar a clareza das alternativas políticas entre a esquerda e a direita e, portanto, poderá também por essa via aumentar a qualidade da representação política, a qual depende da existência de alternativas políticas claras apresentadas aos eleitores para propiciar escolhas efetivas da parte destes.

Quinto, esta solução poderá ajudar a combater uma certa cartelização do sistema político, mediático e económico, que favorece os dois maiores partidos e se espelha, por exemplo, no seu conúbio com os grandes interesses económicos, de que são indicador a significativa circulação das elites políticas do PSD e do PS (mas também do CDS-PP) do sistema político para as grandes empresas portuguesas, nomeadamente as do PSI 20, e vice-versa.

Sexto, poderá trazer uma pressão significativa no sentido de uma Europa mais social e mais democrática, que proteja mais as minorias territoriais (isto é, os pequenos Estados), sobretudo se contagiar outros países. Por isso também há tanta pressão das forças instaladas na Europa, mormente alinhadas à direita, para que tal não suceda.

Porém, em sétimo lugar, se tal solução não perdurar no tempo, se não se revelar estável e se não for bem-sucedida, nem gerar contágio europeu, então poderá propiciar um regresso em força da direita portuguesa e dar um sinal, na Europa, para o reduzido espaço para alternativas políticas minimamente efetivas na União Europeia. Poderá até beneficiar a direita, no curto-médio prazo, mas não beneficiará com certeza a democracia europeia, no médio-longo prazo.

Oitavo, se esta solução vingar (nas linhas já referidas atrás) a esquerda radical poderá ficar, por um lado mais moderada (logo esbater um pouco alguma da sua identidade mais ligada ao protesto), mas, por outro lado, apesar de perder alguma radicalidade, poderá também perder marginalidade e ganhar maior influência social, mediática e política do BE, do PCP e do PEV, em particular, e da esquerda, no seu conjunto (pela união de esforços). Claro que há que ter também em conta que este tipo de incursões na esfera governativa, torna os partidos da esquerda radical mais permeáveis aos altos e baixos eleitorais.

André Freire
andre.freire@meo.pt

Professor Associado com Agregação em Ciência Política. Foi diretor da Licenciatura em Ciência Política do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (2009-2015). É desde 2015 diretor do Doutoramento em Ciência Política do ISCTE-IUL. Investigador Sénior do CIES-IUL. Autor de numerosas publicações em livros e revistas académicas. Perito e consultor convidado de várias instituições nacionais e internacionais.

2 Comentários
  • Bruno Félix Contente Gomes
    - 17:21h, 17 Outubro

    Na mouche caro André!
    Nada será como antes, com muita pena da direita!

  • Pedro Reis
    - 11:15h, 22 Outubro

    Aplaudo a “Geringonça” está bem oleada !!!