CGD: Miséria de Discussão

CGD: Miséria de Discussão

Os homens da Caixa Geral de Depósitos vão ter “vencimentos” ou “salários”, impopulares diz António Costa, não “compreendido(s)” diz Jerónimo, “é muito dinheiro” diz a Mariana Mortágua.

Que um socialista possa falar sem rigor em “vencimento”, sinónimo de salário, dizem os dicionários, acerca das remunerações da administração da Caixa Geral de Depósitos, compreende-se. Será assim desde que a social-democracia se afastou de Marx há muitas décadas atras. Mas é menos aceitável que dois partidos que se revêm nos termos da economia clássica e, em especial em Marx, falem na mesma onda descontraída sobre supostos salários. Jerónimo ainda considera que pode estar a ser “simplista” ao falar assim da questão. E é sem dúvida simplista, senão vejamos:

Segundo Adam Smith, no Capítulo VIII de sua obra A Riqueza das Nações: “O homem sempre precisa viver de seu trabalho, e seu salário deve ser suficiente, no mínimo, para a sua manutenção. Esses salários devem até constituir-se em algo mais, na maioria das vezes; de outra forma seria impossível para ele sustentar uma família e os trabalhadores não poderiam ir além da primeira geração” (Smith, 1983, p.93-4). Na visão clássica, salário ou vencimento, equivale ao valor dos meios de subsistência do trabalhador e em nada se liga com o valor que resulta do dispêndio da sua força de trabalho. O regime salarial é, canonicamente, dissociado dos resultados da produção. É também por isto que Marx o denominava, e ainda hoje se denomina, como sendo o regime de “escravidão assalariada”. É, portanto, de um simplismo atroz chamar aquilo que os administradores vão ganhar, como sendo um salário ou vencimento, como se estivessem na situação do operário da auto-Europa.

O regime dos administradores, é obviamente um regime “desassalariado” que, se espera, esteja ligado e bem ligado a resultados e planos concretos de uma missão que de resto deveria ser bem conhecida e passível de apertado escrutínio.

Para a causa socialista, é compreensível o sentido de agir em prol de leques salariais mais estreitos – aqui em significado estrito –  na sociedade portuguesa e faz sentido pugnar por mais igualdade retributivason-of-manem geral, sem duvida. Sem entender bem a questão teórica subjacente será, porém, impossível ir além de simplismos que em nada ajudam a formar consciência. Desde logo, a questão estratégica da causa socialista que daqui decorre é a que autoriza que uma minoria se consiga desassalariar e o mesmo não seja reconhecido aos restantes trabalhadores como direito a novas relações de produção, onde se ligue a retribuição ao valor da produção. Posso, é claro, reconhecer que esta é tarefa de longo fôlego e que nos temos é de concentrar em tarefas bem mais prosaicas como colocar em bom funcionamento o banco público. E esse é que tem de ser o critério para avaliar do bom ou  do mau desempenho da solução agora escolhida.

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Paulo Fidalgo
paulofidalgo@inbox.com

Actividade profissional: médico gastrenterologista. Posição anterior: Chefe de Serviço no IPO de Lisboa. Posição actual: gastrenterologista na Fundação Champalimaud. Actividade associativa desde a associação de estudantes de Medicina, Sindicato dos Médicos e Ordem dos Médicos. Acção política em movimentos de esquerda

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