Casa com vistas para dentro e para fora

Casa com vistas para dentro e para fora

Nas recentes jornadas parlamentares do partido socialista, realizadas no passado dia 22, na Guarda, o secretário-geral daquele partido e actual primeiro-ministro, António Costa, voltou a reforçar a importância do Programa Nacional de Reformas, aprovado pelo governo há pouco mais de seis meses,  de que já teriam sido aplicadas algumas medidas, entre as quais “o programa Simplex +, a iniciativa indústria 4.0 – que pretende trazer a revolução digital para os setores tradicionais -, mas também o programa Semente de apoio às start ups ou o programa Capitalizar para ajudar as empresas a recapitalizarem-se” http://ionline.sapo.pt/535211. Voltou também a sublinhar importância dos seis pilares daquele programa, entre os quais avulta a coesão social, e aproveitou para avisar que ” ou resolvemos os problemas estruturais ou não viramos a página”.

No que diz respeito à coesão social, virar a página tem de significar obrigatoriamente que é  na capacitação, na cooperação, na solidariedade e no aumento da autonomia das comunidades locais que se encontram as soluções para melhorar as condições de vida de mais de 20% da população, os idosos. E entre estes, um segmento que até agora não tem merecido a atenção desejada e para o qual está quase tudo por fazer, os idosos institucionalizados. De acordo com o INE, existem cerca de dois milhões de  idosos, dos quais mais de 1 200 mil vivem com outras pessoas com mais de 64 anos, cerca de 400 000 vivem sózinhos e mais de 78 000 vivem em lares, http://observador.pt/2014/09/29/. Embora os contextos dos idosos que vivem sozinhos e dos institucionalizados  sejam diferenciados, e por isso as abordagens terão de ser distintas no apoio a estas populações, para efeitos de coesão social, e no que lhes diz respeito há sua condição, a incapacidade, a diminuição da autonomia, a perda de referências identitárias, a solidão e a depressão são as manifestações que estão mais presentes e para quais é necessário tomar medidas preventivas da sua ocorrência.

Duas medidas prioritárias impõem-se a duas destas três populações: a extensão dos actuais  76 000 apoios domiciliários aos idosos que vivem sozinhos e que cumpram os critérios para a sua cobertura, e a prevenção de novos casos de institucionalização. Dada a sua complexidade social, há que sensibilizar e envolver as famílias e as redes sociais locais na resposta a este problema, mas também  dotar os serviços locais de segurança social e as autarquias, principalmente as juntas de freguesia, de recursos e instrumentos de apoio aos idosos em risco de serem institucionalizados. As estratégias de envelhecimento saudável estarão sempre incompletas se estes casos ficarem excluídos e à mercê do abandono, quer porque ficam isolados  numa casa desabitada ou perdidos entre desconhecidos. A promoção da manutenção dos idosos entre as paredes que os viram envelhecer e com os apoios que a sua condição exige é um passo importante no sentido do reforço da coesão social das comunidades locais. É uma reforma estrutural.

 

Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

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