Considerações sobre contra-revolução armada em Portugal

Considerações sobre contra-revolução armada em Portugal

Nem sempre está tudo dito sobre os factos históricos conhecidos. Há quase sempre  acontecimentos que ficaram  entre as cinzas do tempo,  dados que foram omitidos, razões que não foram valorizadas. Embora muito do que aconteceu à época ainda se mantenha desconhecido, sobretudo no que diz respeito à esfera militar, a obra do jornalista Miguel Carvalho, Quando Portugal ardeu, recentemente publicada, reúne novos testemunhos e documentos, e lança novas pistas sobre o roteiro da contra-revolução em Portugal naqueles meses de 1975 e 1976.

Se quiséssemos estabelecer uma data para o início do processo contra-revolucionário que colocou o país à beira de um golpe da extrema-direita e da guerra civil, essa data podia ser perfeitamente 24 de Janeiro de 1975, o dia em que Frank Carlucci desembarcou em Lisboa para ocupar o lugar de embaixador dos EUA.  Ironicamente, no dia em que passavam vinte e oito anos sobre as barricadas de Rio Maior, em 24 de Novembro de 2003, o que veio depois da sua passagem por Portugal a ser director da CIA foi agraciado pelo então Presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. Não tratando deste episódio na sua obra,  Miguel Carvalho não deixa de colocar Frank Carlucci no centro de todas as movimentações terroristas que se verificaram entre o assalto à sede do PCP, em Rio Maior, em 13 de Julho de 1975, ainda na vigência do IV governo provisório, e o atentado bombista á embaixada de Cuba, em 22 de Abril de 1976, em que morreram Adriana Corcho e Efrén Monteagudo, funcionários da embaixada.

Nesses dez meses, o MDLP, uma coligação constituída pela embaixada dos EUA, elementos do EMGFA, alguns conselheiros da Revolução, hierarquia da igreja católica – de que o bispo do Porto, António Ferreira Gomes sempre se distanciou -, ex-pides, sectores do CDS e do PS, António de Spínola e personalidades do mundo empresarial, como Abílio Oliveira e Joaquim Ferreira Torres – o caixa da contra-revolução -, instala um clima de terror a norte de Rio Maior tendo Alpoim Calvão como principal estratega e  Ramiro Moreira como líder operacional de todas as acções contra sedes de partidos de esquerda e sindicatos, colocação de bombas em viaturas, destruições, intimidações, pânico das populações e, em vários casos, mortes, como os casos do padre Max, da estudante Maria de Lurdes,  de Rosinda Teixeira e de um adolescente em frente ao centro de trabalho Vitória, na avenida da Liberdade.

A  esta coligação, a constituição do VI governo provisório e o 25 de Novembro de 1975 não tinham sido suficientes para responder ás suas exigências, simbolicamente traídas com a declaração de Melo Antunes a 26 de Novembro: “O PCP é indispensável à democracia”, que Pires Veloso, comandante da Região Norte, trataria de lhe responder com um “Ó Melo Antunes, você fez umas declarações de que a gente não gostou nada…”. Se o líder do Grupo dos Nove se distanciava da purga que o 25 de Novembro prometia, não produzindo o efeito desejado na liquidação de todo o processo revolucionário, impunha-se ir mais além, lançar o país numa guerra civil para se regressar à doutrina do 24 de Abril. Estava em causa a reversão das nacionalizações e da reforma agrária. Para eles, a democracia tinha ido longe demais, era necessário colocar-lhe um açaimo e rédea curta. Porém, o ataque revanchista à embaixada de Cuba como retaliação ao apoio dos cubanos à independência de Angola e o efeito que teve a nível internacional obrigou  Ramalho Eanes a tomar  medidas, e com elas, a contenção de todo o processo armado.

Sobre o julgamento da rede bombista, Levy Baptista, um dos advogados de acusação, juntamente com Fernando Luso Soares, resumiria da seguinte maneira, o seu desfecho: “Foi um processo essencialmente político. Traduz a complexidade do desmantelamento do fascismo e do Império, sobretudo no caso de Angola”. Josué da Silva, que acompanhou o julgamento da rede bombista, havia de escrever no Diário de Lisboa sobre o acórdão final, “Impossibilitado de chegar ao tecto, o colectivo de juízes saldou-se pelo rés-do-chão”.

Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

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