Aspectos da venda da alma do PSD ao diabo

Aspectos da venda da alma do PSD ao diabo

Vender a alma ao diabo, para quem acredita em mitos, é uma transacção em que uma das condições é a parte a quem se quer vender a alma estar interessada na mercadoria. Ora nos regimes capitalistas a mercadoria ou tem qualidades que a tornam rentável, portanto, capaz de obter uma choruda mais valia, ou não há negócio para ninguém. Sendo o diabo, dizem, uma empresa particularmente exigente na aquisição de bens e serviços transaccionáveis, não se está a ver que vantagens lhe trazia a compra da alma do PSD, como sugere Manuela Ferreira Leite http://expresso.sapo.pt/politica/2018-01-15-Ferreira-Leite-E-bom-vender-a-alma-ao-diabo-para-por-a-esquerda-na-rua.

Justificar a transacção para afastar, em 2019, a esquerda de uma solução governativa, é um exercício que tem em vista querer demonstrar que os portugueses se estão a dar mal com as medidas tomadas, pelo menos até ao momento, e que  seria o preconceito o critério mas importante para os eleitores alterarem o seu sentido de voto. Até agora nenhuma sondagem valida essa presunção. Pelo contrário, e apesar de alguns défices notórios da governação, a situação económica tem vindo a melhor significativamente, com efeitos na melhoria das condições de vida. E esse continua a ser o resultado mais sentido e valorizado pela população na altura de fazer escolhas políticas.

Mas por muito que o PSD queira vender a alma ao diabo, há uma memória que tão cedo não se apaga, seja qual for a sua liderança. É a memória da austeridade, que levou milhares de famílias à miséria. É a memória da austeridade que levou milhares de portugueses a terem de emigrar. É a memória da austeridade que desorganizou os serviços públicos. É a memória da austeridade imposta pela troika, sem apelo nem agravo. É a memória da austeridade acolhida de abraços abertos e com um sorriso nos lábios pelo PSD e o seu parceiro CDS.

Mas querer vender a alma ao diabo é também a melhor metáfora para caracterizar o estado a que chegou este partido. O estado do vale tudo, da ausência de princípios, de orientação e de estratégia autónoma. Basta-lhe ter como  objectivo  posicionar-se de maneira a dar uma possibilidade eleitoral ao PS de se afastar dos seu parceiros parlamentares, BE, PCP e PEV. Porém, ao se agachar a este ponto, o PSD corre o sério risco de se tornar politicamente irrelevante, uma sombra do que já foi, ainda com menos influência política do que o seu aliado da direita.

Pode-se compreender, como Fausto, que o PSD deseje ardentemente superar a herança e a situação em que actualmente se encontra, negociando com Mefistófeles mais vinte e quatro anos de vida sem envelhecer, só para se dedicar aos prazeres da governação. Mas até nisto lhe falta o génio de Goethe para lhe escrever o guião da história.

 

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Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

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