Aljazeera: a liberdade sob fogo

Aljazeera: a liberdade sob fogo

A cadeia televisiva do Qatar, a Aljazeera, é um canal de notícias de abrangência mundial e com uma qualidade de primeira água, na linha de uma France 24, ou de uma CNN, ou ainda de uma BBC. Eu, que vejo muito pouca TV…, sigo regularmente (com prazer e proveito) a Aljazeera…Mete «num chinelo», perdoem-me o plebeísmo, as nossas SICN, TVI24 ou RTP3, por exemplo. Naturalmente, refiro-me apenas e só à emissão em inglês já que a emissão em árabe sou incapaz, por razões linguísticas, de seguir…

Mas além da elevada qualidade da estação e das suas emissões, a par de um forte pluralismo na produção noticiosa e de um confronto plural de opiniões (de especialistas de nível mundial), a Aljazeera tem várias características distintivas (e muito positivas) face às outras cadeias noticiosas de nível mundial. Primeiro, pelos temas e regiões do mundo cobertas: as realidades do Médio Oriente, da Ásia ou da América Latina são cobertas com uma frequência e uma qualidade sem par nas France 24, CNN ou BBC… Segundo, além inovação nos temas e das regiões, há ainda vários programas inovadores e sempre, ou quase sempre, de primeira qualidade. Por último, mas não menos importantes, os jornalistas, pivôs, etc., são agentes dos media de craveira internacional, mas também de extração étnico-cultural amiúde não caucasiana… Também tem caucasianos e caucasianas… mas é uma lufada de ar fresco ver amiúdes tantas caras (bonitas) de outra extração étnico-cultural!…

É certo que o Qatar não é uma democracia, mas tem um sistema político em rota de liberalização, seja pela Aljazeera, seja pelos polos da Universidade de Georgetown em Doha, seja pela abertura no relacionamento com outros países do Golfo Pérsico como o Irão (um país proscrito pelas mais ferozes ditaduras sunitas do Golfo, e não só), seja ambição de projeção do seu softpower não só através da Aljazeera mas também através de um crescente papel de mediador em conflitos no Médio Oriente (qual Noruega do Golfo Pérsico…). Pois, mais ou menos cobertas pelo beneplácito de Donald Trump (embora não necessariamente de outros membros da sua administração…), o Qatar e a sua Aljazeera estão sob fogo das mais ferozes, brutais e reacionárias ditaduras da região (o sultanismo feroz da Arábia Saudita, a ditadura militar do Egipto, os outros sultanismos cruéis do Golfo Pérsico: os Emiratos Árabes Unidos, o Koweit, o Bahrein, pelo menos) que exigem, entre outras coisas, o fecho da Aljazeera. Sobre a crise e os seus contornos, ver aqui e aqui. Na verdade, é a liberdade de imprensa e a normalização das relações com o Irão (moderado) que estão em causa. Haverá causas mais importantes para o governo de esquerdas português se empenhar? Para a Europa progressista se empenhar? E, porém, alguém os ouviu já com o mínimo de clareza e assertividade sobre este assunto? Cheguem-se à frente, por favor, com urgência!…

André Freire
andre.freire@meo.pt

Professor Associado com Agregação em Ciência Política. Foi diretor da Licenciatura em Ciência Política do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (2009-2015). É desde 2015 diretor do Doutoramento em Ciência Política do ISCTE-IUL. Investigador Sénior do CIES-IUL. Autor de numerosas publicações em livros e revistas académicas. Perito e consultor convidado de várias instituições nacionais e internacionais.

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