Agora e na hora da sua morte

Agora e na hora da sua morte

Não se trata de nenhuma homenagem porque todas as homenagens são redundantes. Não se trata, também, de um elogio porque o meu lado da história poucas vezes coincidiu com o seu, mesmo considerando o afável e bem disposto encontro que Carlos Brito, Paulo Fidalgo, António Avelãs, Paulo Jacinto e eu tivemos com ele numa tarde de Abril de 2014, na sua Fundação, a propósito do que se estava a passar no  país,  e do que era necessário fazer para reverter a situação. Nem tão pouco é uma avaliação política porque o tempo ainda é escasso para o fazer. E também não é um julgamento; para isso seria necessário que os nossos códigos coincidissem, e mesmo assim seria um enorme atrevimento. Muito menos uma evocação; dela se encarregarão outros em melhores condições. Trata-se, tão só, de dar conta do significado que Mário Soares teve para a criação das condições para que Portugal seja actualmente um país democrático. E isso não é uma contribuição menor, considerando os quarenta e oito anos de ditadura fascista.

E para não ir mais atrás, assinalar o acordo que foi celebrado entre o PCP e o PS nas vésperas da realização do III Congresso da Oposição Democrática cujas conclusões serviram para criar uma expressiva dinâmica unitária, que sob a bandeira da CDE concorreu às eleições de 1973. Mas que serviu também de inspiração ao programa do MFA,  guiando politicamente a revolução de 25 de Abril, de tal maneira que à distância de quarenta e três anos já se pode afirmar que aquele acontecimento anunciou o que poucos meses depois viria a acontecer.

Mas dar também conta do significado da intervenção de Mário Soares no processo da descolonização, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros. Juntamente com Melo Antunes e Almeida Santos representaram o sector mais progressista do Movimento dos Capitães, opondo-se aos intentos neocolonialistas de Spínola e dos spinolistas. O abraço trocado entre Samora Machel e Mário Soares, no dia 5 de Setembro de 1974, em Lusaka, tornou simbólica e politicamente irreversível as independências de Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Com esse gesto, e mau grado a tentativa do 28 de Setembro, eram os restos do marcelismo que saíam derrotados e a revolução podia respirar mais desafogadamente, já sem o complexo de potência colonial.

Igualmente dar conta da importância que Mário Soares teve na queda do cavaquismo, principalmente durante o seu segundo mandato, com a iniciativa das Presidências Abertas, que deram a conhecer aos portugueses as desigualdades sociais que assolavam o país, e a promoção do congresso Portugal, que futuro?, realizado em Maio de 1994, cuja realização foi decisiva para a derrota eleitoral de Cavaco Silva nas eleições de Outubro de 1995, ao criar uma vasta base social de apoio à mudança de governo.

Já sem funções institucionais, mas mantendo-se politicamente activo e interventivo, deve assinalar-se e sublinhar-se o papel de Mário Soares, que assumiu vários contornos e facetas, na oposição ao governo do PSD/CDS. Pessoal e colectivamente esteve sempre em funções: escrevendo, organizando, dando testemunho, marcando ausências, como foi o caso das comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República. Foi, porventura, o período em que Mário Soares, já mais descomprometido com os seus deveres partidários e institucionais, deu de si aquilo que talvez tivesse querido dar, tivessem as circunstâncias políticas sido outras. De qualquer maneira, considerando a maioria parlamentar que apoia o actual governo, podemos afirmar que até ao fim Mário Soares esteve sempre activo e influenciou a política nacional. E não se resumindo a sua contribuição política a este legado, a ironia da história, para simplificarmos, não deixa de nos surpreender: refez-se, agora com outros contornos, mas com um espírito semelhante, o que foi desfeito vão mais do que quatro décadas. A lição a retirar é de que com adversários políticos a reconciliação é sempre possível.

Cipriano Justo
cjusto@netcabo.pt

Professor universitário, e especialista de saúde pública. Transmontano de Montalegre, com uma longa estadia em Moçambique, dirigente associativo da associação académica de Moçambique e da associação dos estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Várias publicações, entre as quais sete livros de poesia. Prémio Ricardo Jorge e Arnaldo Sampaio.

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