A Vaca Aterrou de Emergência

A Vaca Aterrou de Emergência

A declaração ao país do primeiro-ministro António Costa do passado dia 16 de Outubro, na sequência da morte de mais de 40 pessoas nos incêndios na zona Centro e Norte de Portugal, terá sido o momento político mais baixo e mais trágico deste governo e em particular deste político.

Face ao colapso do estado que falhou no ordenamento, na prevenção, na previsão e por fim no combate aos incêndios, o PM dirigiu-se a um país em estado de choque e em luto com uma soberba e um tom impróprios e ainda se permitiu deixar claro que acontecimentos do mesmo género se podem repetir no futuro e que nada poderemos fazer.

Não Sr. primeiro-ministro. Naquela circunstância, naquele momento, o primeiro-ministro não pode responder daquele forma, naquele tom ou sequer dizer o que disse.

Andemos uns dias para trás. Até a esse fim-de-semana o sucesso e o alto nível de aceitação popular deste governo, medido em sondagens e reflectido no impressivo resultado eleitoral do PS nas recentes eleições autárquicas fica a dever-se, no essencial a quatro factores: 1) Alteração do modelo e paradigma económico, redistribuindo os custos da austeridade, devolvendo rendimentos do trabalho e acelerando a procura interna e externa 2) Diminuição da crispação politica e a devolução da esperança e confiança dos Portugueses e dos mercados internacionais no governo de Portugal 3) Conjuntura internacional favorável, com os mercados mais importantes a crescerem, o BCE a ajudar, os juros contidos e o preço da energia estabilizado 4) Sorte ou acaso que permitiram feitos notáveis ou singularidades nunca antes alcançadas que insuflaram o ego nacional, como sejam a eleição pela primeira vez, de um Português para Secretário-geral das Nações Unidas, a vitória da seleção nacional de futebol no Europeu, a vitória do festival da canção Eurovisão, ou até a Madonna, o Éric Cantona e o Philippe Starck a escolherem viver em Lisboa…

Depois de anos de escuridão e crise, com as lideranças funestas de Passos e Cavaco a recomendarem que imigrássemos, a flagelarem-nos pelo pecado de vivermos “acima das nossas possibilidades” e a cortarem sucessivamente os rendimentos, eis que o novo ciclo político de Costa e Marcelo nos abre um tempo novo. Até há uns dias, os Portugueses achavam-se o máximo. Nada parecia ser grande demais. Tudo estava ao nosso alcance. As vacas podiam voar.

Até que num fim-de-semana quente e seco e de Outono, uma nova maré de fogo ceifa o pais, mata mais de quarenta pessoas, perfazendo 109 com as vítimas de Pedrogão Grande, e a nossa liderança vai às televisões dizer que não havia nada a fazer. Como não? Como é que podemos gastar mais de dez mil milhões de Euros a salvar o BES e o BPN e não temos uns milhões para aviões ou autotanques, ou bombeiros para nos ajudar quando a nossa casa está a arder?

O discurso de António Costa no dia 16 foi o regresso do “aguenta, aguenta”. Escassos dias depois do anúncio da retirada de Passos Coelho, Costa veste-lhe a pele e baixa os ombros. Não tendo percebido que a sua principal virtude política foi devolver a esperança, Costa permitiu-se sugerir que face à ameaça de morte os Portuguese têm que se resignar. Que o incêndio é maior que nós. Maior que nosso conhecimento. Maior que a nossa capacidade de planear, de antecipar, de combater. Não, não têm Sr. primeiro-ministro. Nós esperamos do nosso primeiro-ministro não só que não se resigne, como também que seja o primeiro a liderar a nossa resposta colectiva à tragédia e sobretudo que mude hoje o que for necessário para que não mais se repita uma tragédia igual. Em limite, para que numa próxima, possa dizer ao país que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para impedir este trágico desfeito. E como todos sabemos desta vez não tínhamos feito tudo.

Falhámos todos Sr. primeiro-ministro. Falhou o estado durante estas décadas. Falhou cada um de nós que não limpou o seu jardim, ou os 50 metros à volta da sua casa, falhou cada autarca que não preparou no inverno a época de fogos, que não limpou as estradas municipais, falhou cada concessionário de estrada, público ou privado, que não desmatou 10m para lá das bermas, falharam os ministros da agricultura que deixaram tanto pinheiro e eucalipto juntos, os que deixaram desertificar o país, os que abandonaram a agricultura e o pastoreio. Falharam os que não desenvolveram uma cultura de protecção civil das nossas populações, os que não previram a necessidades das aldeias mais expostas terem depósitos de água e grupo geradores de emergência. Falharam os que desenharam, venderam, permitiram ou lucraram com o SIRESP, os que desactivaram a Empresa de Meios Aéreos do estado, os que não cuidaram da operacionalidade dos helicópteros, os que permitiram naqueles dias dispensar 800 viaturas, 4000 homens e 30 aviões. Falhou o S. Pedro que não nos mandou chuva, falharam as previsões. Falhámos todos. Sr. primeiro-ministro. E depois todos falhámos aos que sozinhos andaram a apagar os fogos no seu quintal. Velhos, mulheres, crianças. Frágeis. Sozinhos. Vulneráveis. E nós aqui em lisboa a falhar-lhes. A culpa, o peso na consciência, é de todos. Deve ser de todos. Tem que ser de todos.

Desta tragédia saímos menos e mais pobres. Quase todos perdedores. Uns perderam a vida. Outros perderam familiares ou amigos. Outros perderam casa, animais, pastos, alfaias. A maioria perdeu a ingenuidade, a esperança e a confiança em si e no estado. Aos olhos do povo houve no entanto um político que saiu bastante legitimado – o Presidente da Republica, Marcelo Rebelo de Sousa. Ele que há bastantes meses previra que as autárquicas iriam mudar o ciclo político, ele que fez tudo o que estava ao seu alcance para facilitar a substituição do actual líder do PSD, soube fortalecer o seu laço afectivo com o seu povo e insuflar o seu poder simbólico num momento de consternação e dor e dai recolher legitimidade e crédito político bastantes para condicionar a segunda metade da legislatura da geringonça com um modelo presidencialista em que o Presidente define o rumo e o governo executa. Costa que fez tudo o que estava ao seu alcance para facilitar a eleição de Marcelo, porque isso favorecia a sua liderança do PS, do Governo e do Pais, terá agora, pela primeira vez nestas funções, sentido o fel deste presidente. Não fosse o PSD estar tão na mó de baixo, ainda sem nova liderança, e pelo contrário o PS ter saído das autárquicas com uma legitimidade popular tão grande, e manifestamente este parlamento tinha caído no discurso presidencial de 3º feira, 17 de Outubro. A vaca, que provou não voar com fumo, deverá perceber que as condições políticas mudaram. Mais do que nunca o presidente puxará a governação para a sua agenda e para si. Nos próximos dois anos a tensão para o bloco central entre Belém e São Bento, com ou sem a São Caetano à Lapa será bastante maior. Com Rio ou Santana, a direita e o seu povo têm em Marcelo o seu líder. Ele ditará as grandes opções e todo o governo, primeiro-ministro incluídos, farão de secretários de estado, executores das orientações que vêm de Belém, da mesma forma que o governo de França executa as orientações que vêm do Palácio do Eliseu.

Costa que até ao dia 15 de Outubro, tinha sempre a ameaça da bomba atómica das eleições antecipadas para usar nas suas negociações com a esquerda parlamentar e com Belém, perdeu agora essa margem, já que apesar do bom desempenho económico o país não lhe daria hoje uma maioria absoluta. A vaca aterrou de emergência!

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José Romano
joseromano.arq@gmail.com

José Romano é arquitecto e cidadão a tempo inteiro. Implicado. Pai. Marido. Mestre de Taekwondo, dirigente de várias associações. Militante do PS. Doutorando em Ciencia Politica no ISCTE. Endividado financeiramente à banca e moralmente ao 25 de Abril a quem deve a Democracia e a Liberdade.

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