A Síria em fogo: Uma História Curta sobre Uma Catástrofe

A Síria em fogo: Uma História Curta sobre Uma Catástrofe

Este post tem o título de um livro recente (Charles Glass, Syria Burning: a Short History of a Catastrophe, Londres & Nova Iorque, Verso Editions, 2016) que comento aqui.

Comecemos pelo principio: porquê comentar este livro, aqui? Ou seja, qual a relação deste tema com a Vaca Voadora (i.e., com a solução que sustenta o XXI governo constitucional)? Há várias razões. Primeiro, a política externa é hoje, em tempos de europeização e globalização, também política doméstica; et pour cause… Segundo, a crise Síria está ligada à vaga de refugiados na Europa, e sem uma solução (política, sobretudo, mas também político-militar) lá, a crise dos refugiados não terminará na Europa e no Mediterrâneo, por certo!… Terceiro, a crise Síria está ligada à fortíssima deriva ditatorial na Turquia, essa ditadura mitigada, ou «democradura» como lhes chamavam nos anos 1970s e 1980s, que é hoje candidata a membro da UE… e continua sendo apesar das marcadas derivas ditatoriais (e outros aspectos em que não cumpre, flagrantemente e cada vez mais…, vários aspectos fundamentais do «adquirido comunitário»…). Quarto, porque é um livro fora da caixa, tal como A Vaca Voadora e a solução política que ela sintetiza metaforicamente. Nomeadamente, porque desmitifica totalmente o maniqueísmo dos mass media, na Europa e nos EUA, tal como a narrativa hegemónica difundida pelas grandes potências (França, EUA, Alemanha, Reino Unido, UE), sobre a crise na Síria, pelo menos até à irrupção do Daesh e, sobretudo, até à vaga de atendados em França e na Europa… Até aí, tínhamos «os maus», de um lado, que eram o Assad (o grande ditador) e os aliados russos e iranianos (idem ou quase)… do outro lado, tínhamos «os bons»: o Ocidente, a Turquia, e as monarquias sunitas, ou seja, a Arábia Saudita, o Qatar, etc. (todos apoiantes da oposição Síria), e os seus aliados no terreno:  a dita oposição Síria. Após a brutal vaga de atendados em França , em particular, e na Europa, em geral, e a irrupção fortíssima dos criminosos alucinados, i.e, os salafistas do ISIL, na Síria e no Iraque…, algum realismo geopolítico terá voltado às chancelarias ocidentais, mas manifestamente insuficiente… Portanto, compreender seriamente a guerra na Síria, e o que está em jogo, ultrapassando os maniqueísmos referidos e tomando acções consequentes (ver abaixo), é uma condição sine qua non para se resolver os problemas inventariados acima, e para uma política séria da UE (logo de Portugal, e do seu governo de esquerdas, também) face ao problema e à candidatura de Ancara à UE…

E o que nos diz o livro? Relato-vos quatro ideias-chave, só mesmo para vos abrir o apetite… Antes, porém, diga-se de passagem que se trata de um pequeno livro (173 pp. em formato de bolso; com prefácio de Patrick Cockburn, e com as poucas referências existentes no corpo do texto, que além disso se lê muito bem) escrito por um grande especialista do Médio Oriente, Charles Glass, o qual escreve regularmente em vários mass media de referência (New York Review of Books, London Review of Books, Harper’s, Spectator) e quando escreveu o livro era correspondente-chefe da cadeia de TV ABC para o Médio Oriente.  Primeira ideia-chave: em 2011, a revolução Síria, na linha das Primaveras Árabes, prometia uma melhor, mais democrática e mais livre Síria, tal como nas democracias ocidentais… porém, o regime respondeu com prisões e violência, e a situação evoluiu para uma guerra civil. Então, as grandes potências ocidentais descobriram os direitos fundamentais do povo sírio… mas nada tinham dito aquando da ocupação dos Montes Golan por Israel e acerca dos 150000 deslocados sírios e seus descendentes… Os mais cínicos de entre os ocidentais, porém, viam aqui acima de tudo uma oportunidade para quebrar o poderio do Irão e da Rússia no Médio Oriente. Segunda ideia-chave, mais tarde o Ocidente descobriu que aqueles que tomaram conta da oposição na Síria, os fundamentalistas islamitas do Daesh e quejandos, tinham deixado cair os nobres objectivos da revolução Síria de 2011 e, na verdade, querem apenas derrubar a ditadura secular do senhor Assad, substituindo-a por uma ditadura teocêntrica de raiz Wahabita / Salafista, alinhada com o Islão sunita radical. Terceira, e é essa possível ditadura teocêntrica de raiz sunita, que poderia esmagar os direitos das várias minorias da Síria (os xiitas de várias confissões, os alawitas, os cristãos, os curdos, os yazidis – curdos etc.), que leva a que a ditadura de Assad receba amiúde alguma tolerância mitigada por parte dessas minorias: sabem que a ditadura política que têm hoje, mas com algumas liberdades sociais e religiosas, poderia ser substituída por uma outra ditadura política de raiz teocêntrica, a acresceria a compressão total, ou quase, das liberdades sociais e religiosas.  Quarto, a hipocrisia da Turquia, das ditaduras sunitas aliadas do Ocidente e do Ocidente ele próprio face ao Daesh, em particular, e face aos islamitas radicais, em geral (pp. 145, 149 e 150): «A Turquia, que é provavelmente a mais poderosa influência local na região, tem estado a usar a sua declarada guerra contra o ISIL como uma cortina de fumo para atacar os curdos, os combatentes mais eficazes até agora contra o ISIL na Síria, no Iraque e provavelmente até na Turquia. (…) se o objectivo é eliminar o ISIL da Síria e do Iraque, donde planeia as matanças noutros sítios, então as forças que se lhe opõem têm que se unir.» As guerras não se vencem com raides áereos, mas as opiniões publicas ocidentais não apoiriam tropas suas no terreno, as quais serão aliás provavelmente contra-producentes (tal como foram no Iraque): apoiar as forças no terreno que se opõem efectiva e eficazmente ao Daesh, nomeadamente os curdos e as milícias xiitas, é crucial. «(…) um passo que não exige quaisquer combates é o seguinte: cortar o abastecimento do ISIL através da Turquia. A Turquia é um aliada, mas não é uma amiga (do Ocidente, leia-se: itálicos nossos). A sua fronteira aberta com a Síria é a linha de vida dos jihadistas.»

Por tudo isso, trata-se de uma excelente obra e acho que uma editora portuguesa, por exemplo a linha editorial Deriva associada ao Le Monde Diplomatique – edição portuguesa, devia ponderar a ideia de traduzir o livro e de editá-lo em Portugal! Fica a recomendação para a Sandra Monteiro, por exemplo.  Tenho outro potencial grande livro na forja (para ler e comentar) sobre este tema, mas esta outra obra levará mais tempo para o relatar aqui…, até porque é bastante grande: Comprendre le chaos syrien Des révolutions arabes au jihad mondial, Genre, junho de 2016, de Alexandre del Valle & Randa Kassis, 438 pp.

André Freire
andre.freire@meo.pt

Professor Associado com Agregação em Ciência Política. Foi diretor da Licenciatura em Ciência Política do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (2009-2015). É desde 2015 diretor do Doutoramento em Ciência Política do ISCTE-IUL. Investigador Sénior do CIES-IUL. Autor de numerosas publicações em livros e revistas académicas. Perito e consultor convidado de várias instituições nacionais e internacionais.

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